Prevenção do CâncerRisco individual e o que fazer com ele
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70 capítulos, 15 gráficos, 66 referências. Cada risco desta lista tem um capítulo por trás.
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Prevenção do Câncer: fatores genéticos, ambientais e adquiridos — Dr. Bernardes Leite de Oliveira, oncologista clínico (CRM-AM 4587, RQE 3902/4058), Manaus, Amazonas. 1ª edição, 2026.
Material educativo. Não faz diagnóstico, não substitui consulta e não cria vínculo médico-paciente. Resolução CFM nº 2.336/2023. Seus dados ficam apenas neste aparelho.
PREVENÇÃO DO CÂNCER
Fatores
genéticos, ambientais e adquiridos — um guia de autoavaliação escalonada
para leigos e profissionais de saúde
Título: Prevenção do Câncer: fatores genéticos,
ambientais e adquiridos — guia de autoavaliação escalonada
Autor: Bernardes Leite de Oliveira
Área: Oncologia | Saúde Pública | Educação em
Saúde
Público: Leitores leigos, pacientes, familiares,
estudantes e profissionais de saúde
Idioma: Português (Brasil)
Publicação independente — Amazon KDP e plataformas
digitais
Ano-base das evidências: dados atualizados até
setembro de 2026
Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser
reproduzida sem autorização prévia do autor, exceto citações breves com
indicação da fonte.
Aviso importante ao leitor
Este livro tem finalidade educativa e informativa.
Ele não estabelece diagnósticos, não substitui a consulta
médica e não cria vínculo médico-paciente entre o autor e o
leitor.
Os instrumentos de autoavaliação apresentados na Parte III são
ferramentas de triagem de risco, isto é, servem para
organizar informações e indicar quando procurar um profissional. Eles
não calculam probabilidade individual de ter ou vir a ter
câncer e não substituem modelos de risco
validados (como Gail/BCRAT, Tyrer-Cuzick, CanRisk/BOADICEA, PLCOm2012),
que devem ser aplicados e interpretados por profissional habilitado.
Nenhuma conduta descrita aqui deve ser iniciada, suspensa ou
modificada sem avaliação individual. Em caso de sintomas, procure
atendimento — não use este livro para adiar uma consulta.
Esta obra observa os princípios da Resolução CFM nº
2.336/2023, que trata da publicidade e propaganda médicas: não
há promessa de resultados, sensacionalismo, garantia de cura,
autopromoção ou uso de imagens de pacientes.
Conflitos de interesse: o autor declara não ter
recebido patrocínio de indústria farmacêutica, laboratórios, planos de
saúde ou fabricantes de dispositivos para a elaboração desta obra.
Como usar este livro
Este livro foi escrito em dois registros
simultâneos, e você pode ler apenas um deles, ou os dois.
Registro popular — “Em palavras simples”. Blocos
escritos para quem não é da área da saúde. Sem jargão, com exemplos do
dia a dia. Se você é paciente, familiar, agente comunitário de saúde ou
apenas alguém que quer cuidar da própria saúde, esses blocos bastam.
Registro técnico — “Nota técnica”. Blocos com
terminologia médica, medidas epidemiológicas, critérios de
encaminhamento e referências. Destinados a médicos, enfermeiros,
dentistas, farmacêuticos, biomédicos, nutricionistas, psicólogos,
estudantes e gestores.
O conteúdo é escalonado em quatro níveis crescentes
de profundidade:
Nível
Nome
Para quem
O que entrega
N1
Consciência
Qualquer pessoa
O que é risco, o que muda o risco
N2
Autoavaliação
Qualquer pessoa
Questionários pontuados por domínio
N3
Estratificação
Pessoa + profissional
Classificação em 4 faixas de risco e conduta
N4
Aplicação clínica
Profissional de saúde
Critérios formais, modelos validados, fluxos
E é regionalizado em três escalas:
mundial, brasileira (5 regiões) e
amazônica, porque o mesmo comportamento tem pesos
diferentes conforme onde a pessoa vive, o que a cerca e a que ela tem
acesso.
PARTE I — FUNDAMENTOS
Capítulo
1. O que é o câncer e por que ele pode ser prevenido
Em palavras simples
O corpo humano é feito de trilhões de células. Elas nascem,
trabalham, envelhecem e morrem, e são substituídas por novas — de forma
organizada. O câncer começa quando uma célula perde essa organização:
ela passa a se multiplicar sem parar, ignora as ordens de “pare” e, com
o tempo, invade tecidos vizinhos e pode viajar para outros órgãos.
Essa perda de organização não acontece de uma hora para outra. Na
maioria dos casos, leva anos ou décadas, e depende de
danos acumulados no “manual de instruções” da célula — o DNA. É
exatamente por isso que a prevenção funciona: como o processo é lento e
depende de acúmulo, cada exposição evitada e cada lesão
detectada cedo interrompem a linha de montagem do tumor.
Duas ideias que valem por um capítulo inteiro:
Câncer não é destino. Uma parcela grande dos casos
tem causas identificáveis e evitáveis.
Câncer não é uma doença só. São mais de cem doenças
diferentes, com causas, comportamentos e prevenções diferentes. Prevenir
câncer de colo do útero é uma coisa; prevenir câncer de pulmão é
outra.
Nota técnica
A carcinogênese é um processo multissequencial clássico descrito em
três etapas: iniciação (dano genotóxico irreversível em
célula-alvo), promoção (expansão clonal da célula
iniciada sob estímulo proliferativo sustentado, etapa reversível e
dependente de exposição continuada) e progressão
(instabilidade genômica, aquisição de capacidade invasiva e
metastática).
Do ponto de vista molecular, o processo envolve ativação de
proto-oncogenes, perda de função de genes supressores tumorais, falhas
em vias de reparo do DNA (reparo de malpareamento, recombinação
homóloga, reparo por excisão de nucleotídeos), alterações epigenéticas e
remodelamento do microambiente tumoral, com evasão imune.
A janela de latência — frequentemente de 10 a 30 anos entre exposição
e doença clínica — é o fundamento operacional da prevenção primária, e a
existência de lesões precursoras identificáveis (neoplasia
intraepitelial cervical, adenoma colorretal, leucoplasia oral, esôfago
de Barrett com displasia) é o fundamento da prevenção secundária.
Níveis de prevenção aplicados à oncologia:
Nível
Objetivo
Exemplos
Primordial
Impedir que fatores de risco se instalem na população
Ambientes livres de fumo, regulação de ultraprocessados,
saneamento
Primária
Reduzir incidência
Vacinação HPV e hepatite B, cessação tabágica, controle de exposição
ocupacional, fotoproteção
Secundária
Detectar lesão precursora ou doença precoce
Rastreamento de colo do útero, mama, colorretal
Terciária
Reduzir sequelas e recidiva
Reabilitação, seguimento oncológico, prevenção de segundo
primário
Quaternária
Evitar dano por excesso de medicalização
Não solicitar marcadores tumorais em assintomáticos; evitar
sobrediagnóstico
A prevenção quaternária, frequentemente esquecida em livros de
prevenção, recebe um capítulo próprio nesta obra (Capítulo 12).
Onde cada tipo de prevenção age na
história do tumor
Figura 1.1 — A janela que torna a prevenção
possível. A latência longa entre a exposição inicial e a doença
clínica é o que permite interromper o processo em três momentos
distintos: evitando a exposição (prevenção primária), encontrando a
lesão precursora (rastreamento) e investigando o sintoma sem demora
(diagnóstico precoce). Esquema didático baseado no modelo clássico
de iniciação, promoção e progressão.
Capítulo 2.
Entender “risco” antes de medir o seu
Em palavras simples
Quando alguém diz que “fumar aumenta em 20 vezes o risco de câncer de
pulmão”, isso não significa que o fumante tem 20 chances em 100.
Significa que ele tem 20 vezes o risco de quem não fuma — e o risco de
quem não fuma é baixo. Multiplicar um número pequeno por 20 pode
continuar dando um número relativamente pequeno; multiplicar um número
já grande por 2 pode dar um número enorme.
Por isso, ao longo do livro você vai encontrar sempre duas
perguntas:
Quanto muda? (o efeito do fator)
Muda em cima de quê? (o seu risco de base — idade,
sexo, história familiar, região)
Diferença entre risco relativo e risco
absoluto
Figura 2.1 — A mesma informação, dita de dois
jeitos. “Reduz o risco pela metade” e “evita 1 caso em cada
100” descrevem exatamente o mesmo resultado. O primeiro impressiona; o
segundo informa. Sempre que alguém lhe apresentar um percentual de
redução, pergunte: reduz de quanto para quanto?
Como o dado é apresentado
O que a pessoa entende
O que realmente acontece
“Reduz o risco em 50%”
“Metade das pessoas se beneficia”
1 pessoa em 100 deixa de adoecer
“Aumenta o risco em 18%”
“18 em cada 100 vão adoecer”
O risco de base sobe, por exemplo, de 5% para 5,9%
“Risco 20 vezes maior”
“Vou ter câncer”
Um risco pequeno multiplicado ainda pode ser modesto — mas, no caso
do tabaco e do pulmão, o risco de base já não é pequeno
Existe ainda um terceiro conceito, o mais útil de todos para a saúde
pública: quanto disso dá para evitar. Estudos
brasileiros mostram que uma fração substancial dos casos é atribuível a
fatores modificáveis. Em uma análise pioneira publicada na PLoS
One, estimou-se que cerca de 34% dos casos e 42% das mortes
por câncer projetados para o Brasil em 2020 eram atribuíveis a
fatores de risco externos modificáveis — tabagismo, infecções, baixo
consumo de frutas e vegetais, inatividade física, excesso de peso, entre
outros. Outra análise, com foco em cinco fatores de estilo de vida,
estimou que ao menos 114 mil casos por ano (cerca de 27% do
total) e 63 mil mortes (cerca de 34%) seriam evitáveis no
país.
A leitura correta desses números é: o câncer não é sorteio,
mas também não é culpa individual — é o resultado de exposições
que dependem tanto de escolhas quanto de condições sociais, ambientais e
de acesso.
Nota técnica
Medidas que o leitor profissional deve
distinguir:
Risco absoluto: probabilidade de o evento ocorrer
em um período definido (ex.: risco de câncer de mama em 5 anos).
Risco relativo (RR) / razão de chances (OR) / hazard ratio
(HR): medidas de associação, não de magnitude absoluta.
Risco atribuível populacional (fração atribuível,
FAP): proporção de casos que deixaria de ocorrer se a exposição
fosse eliminada; depende do RR e da prevalência da
exposição — motivo pelo qual fatores de RR modesto e alta prevalência
(excesso de peso, inatividade) pesam mais que fatores de RR alto e baixa
prevalência.
Fração de impacto potencial (PIF): proporção
evitável sob cenários realistas de redução parcial da exposição.
Número necessário para rastrear (NNS) e
número necessário para causar dano (NNH):
indispensáveis para comunicar balanço benefício-risco em
rastreamento.
Vieses de rastreamento: lead time,
length time e sobrediagnóstico — três razões pelas quais
“sobrevida melhor” não prova “menos mortes”.
Hierarquia de evidência aplicada à causalidade em
carcinogênese. A referência internacional é a classificação das
Monografias da IARC/OMS:
Grupo IARC
Significado
Exemplos
1
Carcinogênico para humanos
Tabaco (fumado e sem fumaça), fumo passivo, álcool (etanol de
bebidas), HPV 16/18, HBV, HCV, H. pylori, HTLV-1, amianto,
benzeno, formaldeído, radiação solar UV, radônio, arsênico, fuligem,
poluição do ar exterior e material particulado, carne processada,
radiação ionizante
2A
Provavelmente carcinogênico
Carne vermelha, emissões de fritura em alta temperatura, trabalho em
turnos com desregulação circadiana
2B
Possivelmente carcinogênico
Diversos agentes com evidência limitada
3
Não classificável
Evidência insuficiente
Atenção conceitual frequentemente confundida por leigos e
pela imprensa: os grupos da IARC expressam força da
evidência de que o agente causa câncer, e não a
magnitude do risco. Tabaco e carne processada estão ambos no
Grupo 1 — mas o impacto quantitativo é incomparável.
Capítulo 3. O
panorama: mundo, Brasil e Amazônia
Em palavras simples
O câncer é hoje um dos maiores problemas de saúde do planeta e está
crescendo — em grande parte porque a população está envelhecendo e
vivendo mais.
No mundo, as estimativas da Agência Internacional
para Pesquisa em Câncer (IARC/OMS) para 2022 indicaram cerca de
20 milhões de casos novos e 9,7 milhões de
mortes, com projeção de chegar a 35 milhões de casos em
2050. Aproximadamente 1 em cada 5 pessoas
desenvolve câncer ao longo da vida.
No Brasil, o Instituto Nacional de Câncer (INCA)
estima 781 mil casos novos por ano no triênio
2026–2028 — cerca de 518 mil quando se
excluem os tumores de pele não melanoma.
Na Amazônia, o desafio tem forma própria: menor
incidência registrada em alguns tumores (em parte por acesso desigual ao
diagnóstico), mas peso maior de cânceres evitáveis, com
destaque para o câncer do colo do útero e, entre homens, o câncer de
estômago.
Nota técnica
3.1 Escala mundial
Segundo o GLOBOCAN 2022 (IARC), os tumores mais frequentemente
diagnosticados no mundo foram: pulmão (12,4%),
mama feminina (11,6%), colorretal
(9,6%), próstata (7,3%) e estômago
(4,9%). As principais causas de morte por câncer foram
pulmão (18,7%), colorretal (9,3%),
fígado (7,8%), mama feminina (6,9%) e
estômago (6,8%). As taxas de incidência variaram de
quatro a cinco vezes entre regiões do mundo.
Extremos de incidência entre regiões do
mundo
Figura 3.1 — Onde se vive muda o risco. As taxas de
incidência variaram de quatro a cinco vezes entre regiões do mundo em
2022: de 507,9 por 100.000 em homens da Austrália e Nova Zelândia a 97,1
na África Ocidental; e de 410,5 a 103,3 entre mulheres [1]. Parte dessa
diferença é exposição real; parte é capacidade de diagnosticar e
registrar.
Perfil regional global (síntese orientadora para o
leitor):
Macrorregião
Padrão predominante
Fatores dominantes
América do Norte, Europa Ocidental, Oceania
Mama, próstata, colorretal, pulmão, melanoma
Tabagismo em declínio, obesidade, sedentarismo, envelhecimento,
rastreamento intenso (e sobrediagnóstico)
Leste Asiático
Estômago, fígado, esôfago, pulmão
H. pylori, HBV, dieta salgada e defumados, tabagismo
África Subsaariana
Colo do útero, mama, fígado, Kaposi
HPV com baixa cobertura vacinal e de rastreio, HBV, HIV
Sul e Sudeste Asiático
Cavidade oral, colo do útero, mama
Tabaco sem fumaça e betel quid, HPV
América Latina
Mama, próstata, colorretal, estômago, colo do útero
Transição epidemiológica com dupla carga: infecções + estilo de
vida
3.2 Escala brasileira
Distribuição percentual estimada para 2026–2028 (excluindo pele não
melanoma):
Homens: próstata 30,5% · cólon e reto 10,3% · pulmão
7,3% · estômago 5,4% · cavidade oral 4,8%. Mulheres:
mama 30,0% · cólon e reto 10,5% · colo do útero 7,4% · pulmão 6,4% ·
tireoide 5,1%.
A distribuição entre os sexos é praticamente equilibrada: 49,4% dos
casos em homens e 50,6% em mulheres.
Desigualdades regionais destacadas pelo INCA:
Câncer do colo do útero está entre os mais
incidentes nas regiões Norte e Nordeste.
Câncer de estômago apresenta maior incidência entre
homens no Norte e Nordeste.
Tumores associados ao tabagismo (pulmão e cavidade
oral) são mais frequentes no Sul e Sudeste.
As diferenças refletem desigualdades de comportamento, de acesso ao
diagnóstico e ao tratamento.
Advertência metodológica exigida pelo próprio INCA:
as edições da Estimativanão devem ser comparadas
diretamente entre si para construção de séries históricas, pois
refletem também melhorias de cobertura dos Registros de Câncer de Base
Populacional e revisões metodológicas alinhadas à IARC/OMS. Para análise
de tendência, usar dados consolidados dos RCBP ou estudos de séries
temporais.
3.3 Escala amazônica
O Norte concentra características que alteram a prioridade das ações
preventivas:
Alta carga de câncer do colo do útero, com
cobertura de rastreamento historicamente inferior à das regiões Sul e
Sudeste e barreiras geográficas de acesso (comunidades ribeirinhas,
distâncias fluviais, sazonalidade dos rios).
Câncer gástrico com peso relevante entre homens, em
contexto de alta prevalência de Helicobacter pylori.
Hepatites virais: a região amazônica ocidental é
reconhecidamente área de alta endemicidade histórica para hepatite B e
para o vírus delta (HDV), com implicação direta em cirrose e carcinoma
hepatocelular.
Exposições ambientais próprias: fumaça de queimadas
e de biomassa, exposição ao mercúrio em áreas de garimpo, agrotóxicos em
fronteiras agrícolas, radiação ultravioleta intensa o ano inteiro.
Acesso: concentração de serviços de oncologia em
capitais, com tempo até o diagnóstico frequentemente prolongado.
Consequência prática: em Manaus e no interior do
Amazonas, a ordem de prioridade preventiva não é a
mesma de São Paulo ou Porto Alegre. Vacinação contra HPV,
rastreamento organizado de colo do útero, vacinação e triagem de
hepatite B, e diagnóstico precoce de câncer gástrico têm, na Amazônia,
retorno populacional proporcionalmente maior.
PARTE II — OS TRÊS DOMÍNIOS
DE RISCO
Capítulo 4.
Fatores genéticos e hereditários
Em palavras simples
A maior parte dos cânceres não é herdada. Estima-se
que apenas cerca de 5% a 10% dos casos venham de uma
alteração genética transmitida de pai ou mãe para filho. O restante
surge de danos que a célula acumula ao longo da vida — esses danos
também são “genéticos”, mas não são hereditários: você
não nasceu com eles e não vai passá-los para seus filhos.
Proporção de casos hereditários e
esporádicos
Figura 4.1 — A maior parte do câncer não vem de
herança. Cerca de 5% a 10% dos casos decorrem de uma variante
genética transmitida na família. Isso não torna a história familiar
irrelevante — torna-a decisiva justamente na minoria em que muda
tudo.
Essa distinção é a fonte de metade dos mal-entendidos em
consultório:
Alteração hereditária (germinativa): está em todas
as células do corpo desde o nascimento, pode ser transmitida aos filhos,
e costuma se manifestar como câncer mais cedo do que o habitual.
Alteração adquirida (somática): aparece só nas
células do tumor, ao longo da vida, e não é
transmitida.
Ter história de câncer na família não significa ter
uma síndrome hereditária. Câncer é comum: é esperado que várias famílias
tenham casos apenas por acaso e por idade avançada. O que chama atenção
não é a quantidade isolada, mas o padrão.
Sinais de alerta de câncer hereditário — os “sete
sinais”:
Câncer em idade jovem (por exemplo, mama antes dos
50 anos, intestino antes dos 50 anos).
Vários parentes do mesmo lado da família com o
mesmo câncer ou com cânceres relacionados.
Mais de um câncer primário na mesma pessoa (não é
metástase, são tumores diferentes).
Câncer bilateral em órgão par (as duas mamas, os
dois rins, os dois olhos).
Câncer raro ou incomum para o sexo (câncer de mama
em homem, por exemplo).
Combinações típicas na família (mama + ovário; intestino + útero;
sarcoma + tumor cerebral na infância).
Ascendência ou origem familiar associada a variantes fundadoras
conhecidas.
Se você marcou um ou mais desses itens, o passo certo não é
comprar um teste genético pela internet. É pedir encaminhamento
para aconselhamento genético.
Nota técnica
4.1 Arquitetura do risco
genético
O risco herdado distribui-se em três camadas:
Variantes de alta penetrância (síndromes de
predisposição hereditária ao câncer) — risco relativo elevado,
prevalência baixa.
Variantes de penetrância moderada (ex.:
ATM, CHEK2, BRIP1, RAD51C/D) — risco
intermediário, manejo dependente de história familiar.
Risco poligênico (escores poligênicos, PRS) —
muitos alelos comuns de efeito pequeno; ferramenta ainda em
consolidação, com limitação importante de transferibilidade em
populações miscigenadas como a brasileira. Não deve ser usado
isoladamente para decisões clínicas.
4.2
Principais síndromes de predisposição hereditária
Síndrome
Genes
Espectro tumoral principal
Marcadores de suspeição
Câncer de mama e ovário hereditário (HBOC)
BRCA1, BRCA2
Mama (incl. masculina), ovário/tuba/peritônio, próstata,
pâncreas
Mama < 45–50a; mama triplo-negativa < 60a; mama + ovário; mama
masculina
CCR ou endométrio < 50a; tumores sincrônicos/metacrônicos;
MSI-H/dMMR
Li-Fraumeni
TP53
Sarcomas, mama jovem, tumores adrenocorticais, SNC, leucemias
Sarcoma < 45a; carcinoma adrenocortical em qualquer idade;
múltiplos primários
Polipose adenomatosa familiar (PAF)
APC
Colorretal, duodeno, tireoide, desmoide
> 10–20 adenomas colorretais cumulativos
Polipose associada a MUTYH
MUTYH (bialélica)
Colorretal
Polipose com padrão recessivo
Câncer gástrico difuso hereditário
CDH1
Gástrico difuso, mama lobular
Gástrico difuso < 50a; ≥ 2 casos familiares
Von Hippel-Lindau, NEM1, NEM2, Cowden, Peutz-Jeghers
VHL, MEN1, RET, PTEN,
STK11
Espectros específicos
Sinais sindrômicos característicos
4.3
Particularidade brasileira de alta relevância
A variante germinativa TP53 p.R337H é uma
variante fundadora de alta prevalência no Sul e Sudeste
do Brasil, historicamente associada a carcinoma adrenocortical na
infância e a fenótipo Li-Fraumeni-like, com penetrância
variável. É um exemplo concreto de por que critérios
internacionais precisam de leitura contextualizada no Brasil: a
suspeição diante de carcinoma adrenocortical pediátrico é, aqui,
particularmente elevada.
4.4
Quando encaminhar para aconselhamento genético (síntese
operacional)
Encaminhar quando houver, em paciente ou família de primeiro/segundo
grau do mesmo ramo:
Câncer de mama ≤ 45 anos; mama triplo-negativo ≤ 60 anos; mama
masculina em qualquer idade.
Câncer de ovário/tuba/peritoneal em qualquer
idade.
Câncer de pâncreas ou próstata metastático/de alto risco com
história familiar sugestiva.
Câncer colorretal ou de endométrio ≤ 50 anos, ou com dMMR/MSI-H, ou
múltiplos primários.
≥ 10 adenomas colorretais cumulativos.
Carcinoma adrenocortical, sarcoma < 45 anos, retinoblastoma,
feocromocitoma/paraganglioma.
Dois ou mais primários no mesmo indivíduo; três ou mais parentes com
tumores do mesmo espectro.
Variante patogênica já identificada em familiar (teste direcionado
ao sítio familiar).
Princípios não negociáveis do teste genético
germinativo:
Consentimento informado e aconselhamento
pré e pós-teste.
Sempre que possível, iniciar o teste pelo familiar
afetado mais informativo.
Interpretar variantes conforme critérios ACMG/AMP; VUS
(variante de significado incerto) não muda conduta clínica e
não deve motivar cirurgia redutora de risco.
Teste negativo em família sem variante identificada é não
informativo, não é sinônimo de risco habitual.
Testes diretos ao consumidor não substituem teste clínico validado e
frequentemente cobrem apenas painéis parciais.
Considerar implicações familiares, reprodutivas e psicológicas, além
da proteção de dados (LGPD).
Capítulo 5.
Fatores ambientais e ocupacionais
Em palavras simples
Ambiente, aqui, não é só “natureza”: é tudo o que cerca você — o ar
que respira, a água que bebe, a luz do sol que recebe, os produtos que
manuseia no trabalho, a fumaça do fogão a lenha, o cigarro que outra
pessoa acende ao seu lado.
Os grandes agentes ambientais com causa comprovada de câncer:
Fumaça de tabaco, inclusive a que você não fumou
(fumo passivo).
Radiação ultravioleta do sol — na Amazônia,
exposição intensa o ano inteiro.
Radônio, gás radioativo natural que se acumula em
ambientes fechados.
Poluição do ar, incluindo material particulado e
fumaça de queimadas.
Fumaça de biomassa (fogão a lenha em cozinha sem
ventilação).
Amianto, benzeno, formaldeído, sílica, arsênico,
agrotóxicos e outros agentes ocupacionais.
Radiação ionizante — inclusive exames de imagem
repetidos sem indicação.
Você não controla tudo isso sozinho. Parte é política pública. Mas
parte é escolha doméstica e uso correto de equipamento de proteção.
Cavidade oral, faringe, laringe, esôfago, fígado, colorretal,
mama
Risco sem limiar seguro; sinergismo multiplicativo
com tabaco
Radiação solar UV
Grupo 1
Melanoma, carcinomas basocelular e espinocelular
Exposição cumulativa + queimaduras na infância
Radônio domiciliar
Grupo 1
Pulmão
2ª causa de câncer de pulmão em vários países
Poluição do ar exterior e material particulado
Grupo 1
Pulmão (e associação com bexiga)
Relevante em episódios de queimadas na Amazônia
Combustão de biomassa em ambiente interno
Grupo 1 (emissões de combustão doméstica de carvão; biomassa
2A)
Pulmão, VADS
Cozinha sem exaustão, população rural e ribeirinha
Amianto/asbesto
Grupo 1
Mesotelioma, pulmão, laringe, ovário
Latência longa; história ocupacional retrospectiva obrigatória
Benzeno
Grupo 1
Leucemia mieloide aguda
Postos de combustível, indústria química, solventes
Formaldeído
Grupo 1
Nasofaringe, leucemia
Laboratórios de patologia, salões de beleza (alisamentos)
Sílica cristalina
Grupo 1
Pulmão
Marmorarias, construção civil, mineração
Arsênico inorgânico
Grupo 1
Pele, pulmão, bexiga
Água de poço em áreas geologicamente afetadas
Radiação ionizante
Grupo 1
Múltiplos, incl. tireoide e leucemias
Justificação e otimização de exames (princípio ALARA)
Trabalho em turnos com desregulação circadiana
Grupo 2A
Mama
Relevante para plantonistas e profissionais de saúde
Agrotóxicos específicos
Variável (alguns 2A)
Linfomas, próstata, leucemias
Fronteiras agrícolas; uso de EPI e rastreabilidade
5.2 Anamnese
ocupacional mínima (para o profissional)
Toda consulta de prevenção deveria conter cinco perguntas:
Em que você trabalha hoje e em que já trabalhou?
(linha do tempo ocupacional, incluindo trabalho informal e rural)
Com quais produtos, poeiras, fumaças ou vapores você tem
contato?
Usa equipamento de proteção? Qual? Com que
frequência?
Alguém no seu trabalho adoeceu de forma
parecida?
Como é sua moradia? (ventilação, tipo de fogão,
fonte de água, proximidade de área industrial ou de garimpo)
Notificar suspeita de câncer relacionado ao trabalho no SINAN e
emitir CAT quando aplicável é obrigação legal e frequentemente
negligenciada.
5.3 Nota amazônica
Três exposições merecem destaque regional:
Queimadas e material particulado fino (MP2,5):
picos sazonais expõem populações urbanas e ribeirinhas a níveis muito
superiores aos parâmetros da OMS, com impacto respiratório imediato e
risco oncológico de longo prazo.
Mercúrio de garimpo: o mercúrio metálico e seus
compostos inorgânicos não são classificados pela IARC como carcinógenos
humanos comprovados (o metilmercúrio é Grupo 2B), mas a exposição é um
problema neurotoxicológico e de saúde pública maior na região, e
frequentemente coexiste com exposição a arsênico e outros metais.
Evitar transformar preocupação legítima em afirmação científica
indevida é parte da honestidade editorial desta obra.
Radiação UV equatorial: índice ultravioleta extremo
durante a maior parte do ano, com exposição ocupacional intensa
(pescadores, agricultores, mototaxistas, trabalhadores de rio).
Capítulo
6. Fatores adquiridos: comportamento, metabolismo e infecções
Em palavras simples
Fatores adquiridos são aqueles que entram na sua vida ao longo do
tempo — hábitos, peso corporal, infecções, medicamentos, condições de
saúde. É o domínio onde a prevenção rende mais, porque quase tudo aqui é
modificável.
Os seis grandes:
Tabaco. O maior fator de risco evitável, em
qualquer forma: cigarro industrializado, palheiro, cachimbo, narguilé,
tabaco mascado. Cigarro eletrônico não é opção segura.
Álcool. Não existe dose sem risco. O risco cresce
com a quantidade e é multiplicado quando combinado com o cigarro.
Excesso de peso e gordura corporal. Ligado a mais
de uma dezena de tumores, inclusive mama após a menopausa, intestino,
endométrio, rim, fígado, pâncreas e esôfago.
Sedentarismo.
Alimentação: excesso de carne processada, excesso
de carne vermelha, excesso de ultraprocessados, pouca fibra, pouca fruta
e verdura.
Um dado importante do Brasil: uma pesquisa nacional recente mostrou
que o brasileiro reconhece bem o cigarro (90,5%) e o sol (88,3%) como
fatores de risco, mas subestima os demais — apenas
48,3% apontam o sedentarismo, 54,1% o
excesso de peso e 27,5% a carne vermelha. Cerca de
1 em cada 4 adultos não sabe que o câncer pode ser
prevenido. Isto é, o que mais falta no Brasil não é tecnologia: é
informação distribuída.
Nota técnica
6.1 Tabagismo
Responsável pela maior fração atribuível isolada de casos e mortes
por câncer no Brasil. O risco depende de carga tabágica
(maços-ano), duração (mais determinante que a
intensidade), idade de início e tempo desde a
cessação. A cessação reduz risco em qualquer idade; o benefício
é progressivo e nunca é tardio demais.
Recurso concreto no SUS: o Programa Nacional de
Controle do Tabagismo (PNCT/INCA) oferece abordagem
cognitivo-comportamental estruturada e farmacoterapia (terapia de
reposição de nicotina, bupropiona) na Atenção Primária,
gratuitamente.
6.2 Álcool
O etanol é carcinógeno do Grupo 1 por múltiplos mecanismos:
acetaldeído (também Grupo 1), estresse oxidativo, alteração do
metabolismo de folato, aumento de estrogênios circulantes e ação como
solvente facilitador da penetração de outros carcinógenos na mucosa.
Para câncer de mama, aumento de risco é detectável a partir de consumos
baixos. Não há limiar seguro estabelecido para risco oncológico —
recomendação atual do INCA e da OMS é evitar, e não
apenas “moderar”.
6.3
Excesso de peso, resistência insulínica e sedentarismo
Mecanismos: hiperinsulinemia e IGF-1, inflamação crônica de baixo
grau (TNF-α, IL-6), aromatização periférica de andrógenos em estrogênios
no tecido adiposo, alterações de adipocinas e da microbiota. Sítios com
evidência consistente: endométrio, mama pós-menopausa,
colorretal, rim, adenocarcinoma de esôfago, cárdia gástrica, pâncreas,
fígado, vesícula, ovário, tireoide e mieloma múltiplo.
Atividade física reduz risco de câncer de cólon, mama e endométrio de
forma independente do peso corporal.
6.4 Alimentação
Evidência consolidada pelo World Cancer Research Fund / AICR
(Terceiro Relatório de Especialistas, 2018 e atualizações
CUP):
Carne processada (Grupo 1 IARC) — associação com
câncer colorretal; recomendação: consumir pouco ou nada.
Carne vermelha (Grupo 2A) — limitar a cerca de três
porções por semana.
Fibras, grãos integrais, frutas, hortaliças e
leguminosas — efeito protetor para colorretal.
Bebidas açucaradas e ultraprocessados — efeito
indireto via ganho de peso, com evidência crescente de associação
direta.
Aflatoxinas (Grupo 1) — produzidas por fungos em
grãos, castanhas e amendoim mal armazenados. O risco documentado de
carcinoma hepatocelular decorre de exposição crônica e
elevada, sobretudo em regiões da África e da Ásia, e é
potencializado pela hepatite B. No Brasil há limites regulatórios da
ANVISA e monitoramento; a orientação prática é conservar bem e descartar
material mofado — sem transformar isso em alarme desproporcional.
Alimentos conservados em sal e defumados —
associados a câncer gástrico.
Mate quente / bebidas muito quentes (> 65 °C) —
Grupo 2A para esôfago.
Não há evidência que sustente dietas “antitumorais”
restritivas, jejuns prolongados terapêuticos, suplementos de megadoses
ou alimentos isolados como prevenção. Suplementação de betacaroteno em
fumantes aumentou a incidência de câncer de pulmão em
ensaios clínicos — exemplo clássico de que “natural” não é sinônimo de
seguro.
6.5 Agentes infecciosos
Cerca de 13% dos cânceres no mundo são atribuíveis a
infecções — 2,2 milhões de casos novos em 2018 —, com peso
proporcionalmente maior em países de renda baixa e média [8].
Casos de câncer atribuíveis a agentes
infecciosos no mundo
Figura 6.1 — Quatro agentes concentram a maior
parte.H. pylori (810 mil casos), HPV (690 mil),
hepatite B (360 mil) e hepatite C (160 mil) respondem pela maioria dos
cânceres de causa infecciosa; as taxas são mais altas no Leste Asiático
(37,9 por 100.000) e na África Subsaariana (33,1), e mais baixas no
Norte da Europa (13,6) [8]. Três desses quatro têm vacina ou
tratamento disponíveis no SUS.
Agente
Tumores
Prevenção disponível
HPV (16, 18 e outros oncogênicos)
Colo do útero, ânus, vulva, vagina, pênis, orofaringe
Vacinação; rastreamento com teste DNA-HPV
Hepatite B (HBV)
Carcinoma hepatocelular
Vacinação universal; tratamento antiviral
Hepatite D (HDV)
Agrava HBV; alta endemicidade histórica na Amazônia Ocidental
Vacinação contra HBV protege
Hepatite C (HCV)
Carcinoma hepatocelular
Triagem e cura com antivirais de ação direta no SUS
Helicobacter pylori
Adenocarcinoma gástrico, linfoma MALT
Erradicação em indivíduos selecionados
HTLV-1
Leucemia/linfoma de células T do adulto
Triagem em bancos de sangue, prevenção de transmissão vertical e
sexual
HIV
Kaposi, linfomas, colo do útero, ânus
TARV, rastreamento intensificado
Epstein-Barr (EBV)
Nasofaringe, linfomas
Sem vacina disponível
6.6 Fatores
reprodutivos, hormonais e iatrogênicos
Menarca precoce, menopausa tardia, nuliparidade e primeira gestação
tardia aumentam exposição estrogênica cumulativa (mama, endométrio,
ovário).
Amamentação é fator protetor com relação dose-resposta.
Terapia hormonal da menopausa combinada aumenta risco de câncer de
mama; a decisão é individualizada, ponderando sintomas, duração e
alternativas.
Contraceptivos hormonais: pequeno aumento de risco de mama e colo do
útero, com redução consistente de risco de ovário e
endométrio — balanço geralmente favorável.
Imunossupressão pós-transplante e uso prolongado de
imunossupressores aumentam risco de tumores cutâneos e
linfoproliferativos.
Radiação médica: tomografias repetidas sem indicação, especialmente
em crianças e adolescentes, constituem risco iatrogênico real.
PARTE III — AUTOAVALIAÇÃO
ESCALONADA
Capítulo
7. O instrumento AR-C: Autoavaliação de Risco em Câncer
O que este
instrumento é — e o que ele não é
É um roteiro estruturado, em seis módulos, que
organiza a sua história pessoal, familiar, ambiental e de hábitos em uma
pontuação que indica qual é o seu próximo passo.
Não é um cálculo de probabilidade individual de
câncer. Não é diagnóstico. Não substitui os modelos matemáticos
validados apresentados no Capítulo 8, nem a avaliação clínica.
Nota técnica sobre a construção do instrumento: o
AR-C é um checklist de triagem de conduta, com
pontuação ordinal derivada de critérios de encaminhamento reconhecidos
(critérios de suspeição de síndromes hereditárias; classificação IARC de
exposições; recomendações WCRF/AICR; diretrizes brasileiras de
rastreamento vigentes em 2026). Os pesos são ordinais e
pragmáticos, não calibrados contra coorte populacional, e
não devem ser publicados ou usados como escore
validado. Sua finalidade é aumentar a probabilidade de que a
pessoa certa chegue ao serviço certo no tempo certo.
Como pontuar: marque todas as afirmações
verdadeiras. Some os pontos dentro de cada módulo, anote no Quadro Final
(Capítulo 7.8) e siga a interpretação.
7.1 Módulo 0 —
Dados basais (não pontua, contextualiza)
Idade: ____ anos
Sexo ao nascer / identidade de gênero: ____________
Órgãos presentes (relevante para rastreamento em pessoas trans):
mama ( ) colo do útero ( ) próstata ( )
Região onde vive: ( ) Norte ( ) Nordeste ( ) Centro-Oeste ( )
Sudeste ( ) Sul ( ) Fora do Brasil
Zona: ( ) urbana ( ) rural ( ) ribeirinha/comunidade tradicional ( )
indígena
Acesso habitual à saúde: ( ) UBS/ESF ( ) plano de saúde ( ) ambos (
) nenhum
Já teve câncer? ( ) não ( ) sim — tipo: ______ idade ao diagnóstico:
____
Se você já teve câncer, este instrumento não se aplica ao seu
seguimento oncológico, que segue protocolo próprio. Ele
continua útil para prevenção de segundo tumor primário
e para orientar sua família.
Um parente de 1º grau (pai, mãe, irmão, filho) teve câncer antes dos
50 anos
5
1.2
Dois ou mais parentes do mesmo lado da família
tiveram câncer do mesmo tipo ou de tipos relacionados (mama+ovário;
intestino+útero; sarcoma+cérebro)
6
1.3
Algum parente teve mais de um câncer primário na
vida
4
1.4
Câncer de mama em homem na família
5
1.5
Câncer de ovário, tuba uterina ou peritônio em
qualquer idade na família
6
1.6
Câncer de pâncreas ou próstata metastático em
parente próximo
3
1.7
Câncer de intestino ou de útero (endométrio) antes dos 50 anos na
família
5
1.8
Alguém na família teve carcinoma adrenocortical, sarcoma
antes dos 45 anos, retinoblastoma ou feocromocitoma
6
1.9
Alguém na família tem variante genética patogênica já
identificada (BRCA1/2, Lynch, TP53 etc.)
10
1.10
Mais de 10 pólipos intestinais já foram retirados de você ou de um
parente próximo
6
Subtotal Módulo 1: ______ (limite 30)
Interpretação isolada do Módulo 1: -
0–4: sem sinais de agregação familiar relevante. -
5–9: história familiar merece registro e revisão
periódica; leve à consulta. - ≥ 10 ou qualquer item 1.5, 1.8 ou
1.9 marcado:encaminhamento para aconselhamento
genético indicado.
Faço 150 minutos ou mais de atividade física por semana
−4
6.4
Mantenho IMC entre 18,5 e 24,9
−3
6.5
Como frutas, hortaliças e leguminosas diariamente
−2
6.6
Estou com vacinação (HPV e hepatite B) e rastreamentos em dia
−5
6.7
Amamentei por 6 meses ou mais (soma-se uma vez, não por filho)
−2
Subtotal Módulo 6: ______ (mínimo −20)
7.8 Quadro final e
estratificação
Módulo
Domínio
Sua pontuação
Máximo
1
Genético/hereditário
______
30
2
Ambiental/ocupacional
______
30
3
Hábitos adquiridos
______
40
4
Infecções e imunização
______
25
5
Rastreamento em atraso
______
25
6
Protetores
− ______
−20
TOTAL
______
150
Faixas de estratificação
Faixa
Pontuação
Leitura
Conduta recomendada
A — Perfil habitual
≤ 20
Seu perfil se aproxima do risco populacional para sua idade e
região
Manter hábitos protetores; cumprir o calendário de rastreamento do
Capítulo 10; reavaliar anualmente
B — Risco aumentado modificável
21–45
O peso está concentrado em fatores que você pode mudar
Escolher duas metas do Capítulo 9 para os próximos
90 dias; consulta na APS em até 3 meses
C — Risco alto / múltiplos domínios
46–75
Combinação de exposições relevantes, atraso de rastreamento ou
história familiar significativa
Consulta médica em até 30 dias, com este quadro em
mãos; revisar rastreamento e exposição ocupacional
D — Prioridade máxima
≥ 76, ou Módulo 1 ≥ 10, ou item
5.8 marcado
Há indicação formal de avaliação especializada
Procurar atendimento imediatamente (item 5.8) ou em
até 15 dias; solicitar encaminhamento para
aconselhamento genético quando Módulo 1 ≥ 10
Regras de
segurança do instrumento (leia sempre)
Pontuação baixa não é garantia. Muitos casos
ocorrem em pessoas sem nenhum fator de risco identificável além da idade
— que é, isoladamente, o fator de risco mais importante para a maioria
dos tumores.
Pontuação alta não é diagnóstico nem previsão. É
indicação de conduta.
Sintoma vence pontuação. Qualquer sinal de alarme
sobrepõe-se ao resultado.
Reaplique a cada 12 meses, ou sempre que houver
caso novo de câncer na família, mudança de trabalho ou de moradia.
Capítulo
8. Modelos de risco validados (nível N4 — profissionais)
O AR-C organiza; os modelos abaixo quantificam. São
ferramentas públicas, gratuitas e de uso clínico consolidado.
Ferramenta
Finalidade
Onde acessar
BCRAT (modelo de Gail) — NCI
Risco de câncer de mama em 5 anos e ao longo da vida em mulheres ≥
35 anos sem mutação conhecida
bcrisktool.cancer.gov
IBIS / Tyrer-Cuzick
Risco de mama incorporando história familiar detalhada, densidade
mamária e fatores hormonais
ems-trials.org/riskevaluator
CanRisk / BOADICEA
Risco de mama e ovário integrando pedigree, variantes patogênicas,
PRS e fatores de estilo de vida
canrisk.org
PREMM5
Probabilidade de síndrome de Lynch
premm.dfci.harvard.edu
PLCOm2012 / critérios USPSTF
Elegibilidade para rastreamento de câncer de pulmão por TC de baixa
dose
shouldiscreen.com
QCancer
Predição de risco de múltiplos cânceres a partir de dados de atenção
primária (população britânica)
qcancer.org
Limitações que devem ser explicitadas ao
paciente:
A maioria dos modelos foi desenvolvida e calibrada em populações de
ascendência majoritariamente europeia; a transferibilidade para
a população brasileira miscigenada é imperfeita, com risco de
sub ou superestimação.
Modelos não substituem critérios de encaminhamento genético: uma
paciente pode ter risco calculado “moderado” e ainda assim preencher
critério formal para teste germinativo.
Escores poligênicos ainda não devem orientar isoladamente decisões
de cirurgia redutora de risco ou de quimioprevenção.
Nenhum modelo prevê o indivíduo: ele estima a média de pessoas com
aquele perfil.
PARTE III-B — PAINEL
QUANTITATIVO DE RISCO
Tudo nesta parte tem fonte identificada. O número entre colchetes
remete à lista de Referências no fim do livro. Onde a
fonte é uma meta-análise ou um ensaio clínico, o estudo está nomeado na
própria tabela para que você possa buscá-lo.
Como ler os números destas páginas — regra de ouro:RR (risco relativo) multiplica o seu risco de base; ele não é a
sua chance. Um RR de 1,6 sobre um risco de base de 10% resulta
em cerca de 16%, e não em 60%.
Capítulo
8A. Quanto cada fator pesa: tabelas de risco
Tabela A1 — Tabaco
Situação
Medida de risco
Fonte
Fumante atual × nunca fumante — câncer de pulmão
RR da ordem de 15 a 30 vezes, variando com
intensidade, duração e idade de início (a duração pesa mais que o número
de cigarros por dia)
US Surgeon General, The Health Consequences of Smoking
(2004; 2014) [30]
Tabagismo — outros sítios
Causa comprovada em pulmão, laringe, faringe, cavidade oral,
esôfago, estômago, pâncreas, fígado, rim, bexiga, colo do útero,
colorretal e leucemia mieloide
IARC Monografias, vol. 100E [9]
Fumo passivo
Carcinógeno do Grupo 1 para pulmão
IARC, vol. 100E [9]
Parar aos 30 anos
Ganho aproximado de 10 anos de expectativa de vida
Doll R, Peto R, Boreham J, Sutherland I. BMJ 2004;328:1519
[31]
Parar aos 40 / 50 / 60 anos
Ganho aproximado de 9 / 6 / 3 anos
Doll et al., 2004 [31]
Peso no Brasil
Principal fator isolado de casos e mortes atribuíveis
Azevedo e Silva G, et al. PLoS ONE 2016 [6]
Tabela A2 — Álcool
(dose-resposta)
Sítio
RR — consumo leve (≤1 dose/dia)
RR — consumo pesado (≥4 doses/dia)
Fonte
Boca e faringe
1,17 (IC95% 1,06–1,29)
5,13
Bagnardi V, et al. Ann Oncol 2013 [32]; Br J
Cancer 2015;112:580-93 [33]
Esôfago (carcinoma escamoso)
1,30 (1,09–1,56)
4,95
Bagnardi 2013 [32] / 2015 [33]
Mama feminina
1,05 (1,02–1,08)
1,61
Bagnardi 2013 [32] / 2015 [33]
Laringe
—
2,65
Bagnardi 2015 [33]
Colorretal
sem associação no consumo leve
1,44
Bagnardi 2015 [33]
Fígado / estômago / pâncreas
—
2,07 / 1,21 / 1,19
Bagnardi 2015 [33]
Leitura prática: para a mama, o aumento aparece já
em consumo baixo; para boca, faringe e esôfago, o aumento é grande em
consumo alto. Fumar e beber juntos multiplicam o efeito, e não apenas
somam.
Ressalva metodológica que este livro não vai
esconder: a associação do consumo leve com
câncer de boca, faringe e esôfago vem sobretudo de estudos
caso-controle; em subanálises restritas a coortes prospectivas ela não
se confirmou de forma consistente, o que gerou debate publicado na
literatura. Para mama, a associação em consumo leve se
mantém também em coortes. A recomendação prática não muda — menos álcool
é melhor —, mas a força da evidência não é igual para todos os
sítios, e dizer o contrário seria exagero.
Tabela
A3 — Peso corporal, atividade física e sedentarismo
Fator
Achado
Fonte
Excesso de gordura corporal
Evidência suficiente de causalidade para 13 tipos
de câncer (esôfago-adenocarcinoma, cárdia gástrica, cólon e reto,
fígado, vesícula, pâncreas, mama pós-menopausa, endométrio, ovário, rim,
meningioma, tireoide, mieloma múltiplo)
IARC Handbook Working Group — Lauby-Secretan B, et al. N Engl J
Med 2016;375:794-8 [34]
Atividade física no lazer
Associada a menor risco em 13 de 26 tipos
analisados, em coorte agrupada de 1,44 milhão de adultos
Moore SC, et al. JAMA Intern Med 2016;176:816-25 [35]
Recomendação operacional
150–300 min/semana de atividade moderada, ou 75–150 min de
vigorosa
OMS, Guidelines on physical activity (2020) [36]; WCRF/AICR
[11]
Tabela A4 — Alimentação
Item
Medida
Fonte
Carne processada
Grupo 1 (IARC). Cada 50 g/dia associa-se a aumento
de cerca de 18% no risco de câncer colorretal
Bouvard V, et al. Lancet Oncol 2015;16:1599-600 [37]
Carne vermelha
Grupo 2A. Cada 100 g/dia associa-se a aumento de
cerca de 17%
Bouvard 2015 [37]; WCRF/AICR [11]
Bebidas muito quentes (> 65 °C)
Grupo 2A para esôfago
IARC Monografias vol. 116 [9]
Aflatoxinas
Grupo 1 — carcinoma hepatocelular
IARC vol. 100F [9]
Fibras e grãos integrais
Evidência convincente de redução de risco de câncer
colorretal
WCRF/AICR, Third Expert Report [11]
Betacaroteno em altas doses em fumantes
Aumentou a incidência de câncer de pulmão em ensaio
clínico randomizado
ATBC Study Group, N Engl J Med 1994;330:1029-35 [38]
Tabela A5 — Infecções
Agente
Peso / efeito
Fonte
Infecções em geral
Cerca de 13% dos casos de câncer no mundo em
2018
de Martel C, et al. Lancet Glob Health 2020;8:e180-e190
[8]
HPV
Responsável por praticamente todos os cânceres de colo do útero
OMS [14]; IARC [9]
H. pylori
Erradicação reduz o risco de câncer gástrico em cerca de um
terço (RR ≈ 0,66) em infectados assintomáticos.
Ressalva: os ensaios foram conduzidos majoritariamente
em populações asiáticas de alta incidência; onde a incidência é menor, o
benefício absoluto é menor, e o Brasil não tem política
de rastreamento e erradicação populacional
Ford AC, et al. BMJ 2014;348:g3174 [39]
Hepatite B
Vacinação universal reduziu a incidência de hepatocarcinoma em
crianças em Taiwan
Chang MH, et al. N Engl J Med 1997;336:1855-9 [40]
Hepatite C
Cura com antivirais de ação direta reduz o risco de hepatocarcinoma
(não o elimina)
Diretrizes OMS/Ministério da Saúde [14]
Tabela A6
— Risco genético: números que mudam a conduta
Grupo
Risco cumulativo de câncer de mama até 80 anos
Risco cumulativo de câncer de ovário até 80 anos
Fonte
População geral feminina (pareada)
12,0% (11,2–12,8)
1,5% (1,3–1,7)
Coorte de Ontário, JAMA Netw Open 2026 [41]
BRCA1
72% (IC95% 65–79)
44% (36–53)
Kuchenbaecker KB, et al. JAMA 2017;317:2402-16 [42]
BRCA2
69% (61–77)
17% (11–25)
Kuchenbaecker 2017 [42]
Portadora com ≥2 parentes de 1º grau afetadas
Chega a 86,3%
—
JAMA Netw Open 2026 [41]
Resultado VUS (significado incerto)
31,2%
não elevado
JAMA Netw Open 2026 [41]
Resultado negativo não informativo
26,3%
não elevado
JAMA Netw Open 2026 [41]
Negativo preditivo (variante familiar conhecida
ausente)
13,1% — semelhante à população
—
JAMA Netw Open 2026 [41]
Câncer contralateral 20 anos após o 1º diagnóstico
40% (BRCA1) / 26% (BRCA2)
—
Kuchenbaecker 2017 [42]
Síndrome de Lynch
Risco de câncer colorretal e de endométrio marcadamente elevado,
variando por gene (MLH1/MSH2 > MSH6 >
PMS2)
—
Prospective Lynch Syndrome Database — Møller P, et al. Gut
[43]
Por que essa tabela importa: é a diferença entre um
risco de 12% e um de 62–72% que justifica ressonância anual, cirurgia
redutora de risco e testagem em cascata na família. Nenhuma mudança de
dieta produz efeito dessa magnitude — e nenhum teste genético é indicado
sem critério clínico.
Duas ressalvas honestas. (1) As estimativas
variam entre estudos. A coorte prospectiva de Kuchenbaecker
(famílias de alto risco, majoritariamente europeias) estimou 72%/69%
para mama; a coorte populacional de Ontário estimou 62,1%/66,1% e um
risco de ovário maior em BRCA2 (29,3%). A ordem de grandeza é a mesma; o
número exato, não. Comunique faixas, nunca um número
fechado. (2) VUS e “negativo não informativo” não equivalem a
risco habitual — não porque a variante signifique algo, mas
porque quem faz o teste costuma ter história familiar, que continua
governando a conduta.
Tabela A7 — Ambiente e
ocupação
Exposição
Classificação / efeito
Fonte
Radônio domiciliar
Grupo 1; segunda causa de câncer de pulmão em vários países
IARC [9]; OMS Handbook on Indoor Radon [44]
Poluição do ar exterior e material particulado
Grupo 1 — pulmão
IARC vol. 109 [9]
Amianto
Grupo 1 — mesotelioma, pulmão, laringe, ovário
IARC vol. 100C [9]
Benzeno
Grupo 1 — leucemia mieloide aguda
IARC vol. 100F [9]
Radiação solar UV
Grupo 1 — melanoma e carcinomas de pele
IARC vol. 100D [9]
Câmaras de bronzeamento
Grupo 1 (proibidas no Brasil pela ANVISA — RDC nº 56/2009)
IARC [9]; ANVISA [45]
Exposições ocupacionais no Brasil
Fração atribuível estimada para agentes ocupacionais e
ambientais
Otero UB, Mello MSC. Rev Bras Cancerol 2016 [46]; Azevedo e
Silva 2016 [6]
Capítulo
8B. Gráficos: ver o risco antes de calculá-lo
Figura 1 — Onde está a
carga no Brasil
Tipos de câncer mais incidentes no
Brasil, 2026–2028
Fonte: INCA, Estimativa 2026–2028 [2,3].
Percentuais sobre o total de casos novos excluindo pele não melanoma.
Leitura: seis tipos concentram a maior parte da carga.
Próstata e mama dominam; cólon e reto ocupa o segundo lugar nos
dois sexos — e é justamente onde o rastreamento organizado
começou a ser implantado no SUS em 2026.
Figura 2 — O
mundo mata diferente do que adoece
Incidência e mortalidade mundiais por
tipo de câncer
Fonte: Bray F, et al. CA Cancer J Clin
2024;74:229-263 (GLOBOCAN 2022) [1]. Leitura: o pulmão
responde por 12,4% dos casos, mas por 18,7% das mortes — é o
desequilíbrio mais grave do gráfico e o mais evitável, porque depende
sobretudo do tabaco. A mama tem 11,6% dos casos e 6,9% das mortes: alta
incidência com letalidade proporcionalmente menor, reflexo de
diagnóstico precoce e tratamento eficaz.
Figura 3 — O
que o brasileiro sabe (e o que não sabe)
Reconhecimento de fatores de risco pela
população brasileira
Fonte: Umane, Vital Strategies e Instituto Devive,
com parceria técnica do INCA — Mais Dados Mais Saúde: percepções da
população brasileira sobre fatores de risco para o câncer (6.566
adultos, set–out/2025; divulgado em 2026) [10].
Leitura: o Brasil aprendeu sobre cigarro e sol, e não
aprendeu sobre peso, sedentarismo e alimentação. Cerca de 27%
dos adultos não sabem que o câncer pode ser prevenido. Este
gráfico é, na prática, o mapa do que precisa ser dito em cada
consulta.
Figura 4 — Álcool: onde o
risco começa
Risco relativo por sítio conforme o
consumo de álcool
Fonte: Bagnardi V, et al. Ann Oncol 2013
(consumo leve) [32] e Br J Cancer 2015;112:580-93 (consumo
pesado) [33]. Leitura: para mama, o risco sobe já em
consumo leve (RR 1,05 por até uma dose/dia). Para boca, faringe e
esôfago, o consumo pesado multiplica o risco por cinco. É por isso que a
recomendação atual do INCA e da OMS é evitar, e não
“moderar”.
Figura 5 — Quando a
genética muda tudo
Risco cumulativo de câncer de mama e
ovário conforme o status BRCA
Fonte: Kuchenbaecker KB, et al. JAMA
2017;317:2402-16 [42]; comparadores populacionais de coorte de testagem
publicada na JAMA em 2026 [41]. Leitura: este
é o único gráfico do livro em que o risco individual salta de ordem de
grandeza. Identificar essas famílias é a intervenção preventiva de maior
rendimento por pessoa avaliada — e depende apenas de uma boa história
familiar, que custa cinco minutos de consulta.
Figura 6 —
Quanto cada intervenção realmente reduz
Redução relativa obtida por diferentes
intervenções preventivas
Fontes, na ordem do gráfico: Falcaro M, et
al. Lancet 2021;398:2084-92 (redução de 87% na incidência de
câncer do colo do útero em mulheres vacinadas aos 12–13 anos, IC95%
72–94) [47]; Ford AC, et al. BMJ 2014 (erradicação de H.
pylori) [39]; National Lung Screening Trial Research Team, N
Engl J Med 2011;365:395-409 (redução de 20% na mortalidade por
câncer de pulmão com TC de baixa dose) [48]; Independent UK Panel on
Breast Cancer Screening, Lancet 2012;380:1778-86 (redução de
cerca de 20% na mortalidade por câncer de mama) [49]; Bretthauer M, et
al. N Engl J Med 2022;387:1547-56 — estudo NordICC (redução de
18% na incidência de câncer colorretal em 10 anos na análise por
intenção de rastrear; a redução de mortalidade, de 10%, não
alcançou significância estatística nesse seguimento) [50].
Leitura honesta deste gráfico: as barras não são
comparáveis entre si sem cuidado. A da vacina mede
incidência; as de rastreamento medem
mortalidade ou incidência em
horizontes diferentes, com populações e adesões diferentes. E as
reduções são relativas: 20% de redução sobre um risco
de base pequeno significa um benefício absoluto pequeno por pessoa,
ainda que grande em escala populacional. O ensaio NordICC, além disso,
teve adesão de apenas 42% no grupo convidado — na análise ajustada por
protocolo, o efeito estimado foi maior.
Figura 7 — Nunca é tarde para
parar
Anos de vida ganhos conforme a idade em
que se para de fumar
Fonte: Doll R, Peto R, Boreham J, Sutherland I.
BMJ 2004;328:1519 — coorte de 50 anos de médicos britânicos
[31]. Leitura: parar aos 30 recupera quase toda a
expectativa de vida perdida; parar aos 60 ainda recupera cerca de três
anos. Não existe idade em que parar deixe de valer a
pena.
Capítulo
8C. Critérios objetivos: como classificar o próprio risco
Os itens abaixo são critérios formais, publicados e verificáveis.
Use-os para converter impressões em classificação.
C1. Carga tabágica —
maços-ano
Fórmula: maços-ano = (número de cigarros por dia ÷
20) × anos de tabagismo. Exemplo: 20 cigarros/dia por 25 anos =
(20 ÷ 20) × 25 = 25 maços-ano.
Critério de elegibilidade para rastreamento de câncer de
pulmão (USPSTF 2021): adultos de 50 a 80 anos,
com ≥ 20 maços-ano, que fumam atualmente ou pararam
há menos de 15 anos [51]. (No Brasil não há
programa populacional implantado no SUS até setembro de 2026 — ver
Capítulo 10.)
C2. Peso corporal
Classificação (OMS)
IMC (kg/m²)
Peso adequado
18,5 – 24,9
Sobrepeso
25,0 – 29,9
Obesidade grau I
30,0 – 34,9
Obesidade grau II
35,0 – 39,9
Obesidade grau III
≥ 40,0
Circunferência abdominal com risco aumentado (OMS):
> 88 cm em mulheres, > 102 cm em homens [52].
C3. Consumo de álcool —
AUDIT-C
Três perguntas, pontuação de 0 a 12. Rastreamento
positivo: ≥ 4 pontos em homens, ≥ 3 pontos em mulheres
[53].
Com que frequência você toma bebidas alcoólicas? (0 = nunca … 4 = 4
ou mais vezes por semana)
Nos dias em que bebe, quantas doses costuma tomar? (0 = 1 ou 2 … 4 =
10 ou mais)
Com que frequência toma 6 ou mais doses numa única ocasião? (0 =
nunca … 4 = diariamente)
Dose-padrão ≈ 14 g de etanol ≈ uma lata de cerveja
(350 mL), uma taça de vinho (150 mL) ou uma dose de destilado (45
mL).
C4.
Critérios clínicos para suspeitar de síndrome de Lynch — Amsterdam
II
Todos os itens devem estar presentes [54]:
Três ou mais familiares com câncer associado à
síndrome de Lynch (colorretal, endométrio, intestino delgado, ureter ou
pelve renal), sendo um deles parente de primeiro grau dos outros
dois.
Envolvimento de duas ou mais gerações
sucessivas.
Pelo menos um caso diagnosticado antes dos 50
anos.
Exclusão de polipose adenomatosa familiar.
Confirmação histopatológica dos tumores.
Os critérios de Amsterdam são específicos, porém pouco sensíveis.
A conduta contemporânea recomenda triagem universal por
imuno-histoquímica das proteínas de reparo (MMR) ou por instabilidade de
microssatélites (MSI) em todos os cânceres colorretais e de
endométrio, independentemente de história familiar [22].
C5. Limiares
que mudam a conduta em câncer de mama
Situação
Limiar
Conduta associada
Fonte
Risco ao longo da vida estimado por modelo que inclua história
familiar (Tyrer-Cuzick, BOADICEA)
≥ 20–25%
Rastreamento com ressonância magnética anual, além da
mamografia
American Cancer Society [55]; NCCN [22]
Risco em 5 anos pelo modelo de Gail
≥ 1,67% em mulheres ≥ 35 anos
Discutir medicações redutoras de risco (tamoxifeno, raloxifeno,
inibidores de aromatase)
USPSTF [56]; NCCN [22]
Variante patogênica em BRCA1/2
Presença confirmada
Rastreamento intensificado a partir dos 25–30 anos; discutir
cirurgias redutoras de risco
NCCN [22]; Kuchenbaecker 2017 [42]
C6. Semáforo de decisão do
AR-C
Cor
Situação
O que fazer
Vermelho
Sintoma de alarme (item 5.8), ou Módulo 1 ≥ 10, ou total ≥ 76
Atendimento imediato (sintoma) ou consulta em até 15 dias;
encaminhamento genético quando indicado
Laranja
Total 46–75
Consulta em até 30 dias; revisar rastreamento e exposição
ocupacional
Amarelo
Total 21–45
Duas metas em 90 dias; consulta na APS em até 3 meses
Verde
Total ≤ 20
Manter; reavaliar em 12 meses
C7.
Tabela-resumo: fator → o que fazer hoje → onde
Fator identificado
Ação imediata
Onde obter no Brasil
Fumo atual
Entrar em grupo de cessação; avaliar TRN/bupropiona
UBS — Programa Nacional de Controle do Tabagismo [21]
Álcool com AUDIT-C positivo
Intervenção breve; reduzir ou cessar
UBS / CAPS-AD
IMC ≥ 25 ou sedentarismo
Meta de 150 min/semana; acompanhamento nutricional
UBS, NASF, programas municipais
Não vacinado para HPV (até 19 anos)
Dose única
UBS, escolas, ações extramuros [19]
Situação vacinal de hepatite B desconhecida
Sorologia e/ou completar esquema
UBS
Nunca testou hepatites/HIV
Teste rápido gratuito
UBS, CTA
Rastreamento de colo em atraso (25–64)
Agendar teste DNA-HPV / citologia
UBS [15]
Mamografia em atraso (50–74)
Agendar mamografia bienal
UBS, unidades móveis [17]
50–75 anos sem rastreio de intestino
Solicitar FIT bienal
UBS — Portaria SAES/MS nº 4.642/2026 [18]
História familiar sugestiva (Módulo 1 ≥ 10)
Encaminhamento para aconselhamento genético
Ambulatório de oncogenética de referência
Exposição ocupacional a carcinógeno
Registro da exposição, EPI, notificação
Serviço de saúde do trabalhador / CEREST
PARTE IV — PREVENÇÃO APLICADA
Capítulo 9.
Prevenção primária: o que realmente funciona
Em
palavras simples — as doze decisões que mais importam
Estas recomendações são adaptadas das evidências consolidadas pelo
World Cancer Research Fund/AICR, pelo Código
Europeu Contra o Câncer e pelas orientações do
INCA, com adequação ao contexto brasileiro e
amazônico.
Não fume, e não deixe fumar dentro de casa. Se
fuma, pare — há tratamento gratuito no SUS.
Evite bebidas alcoólicas. Se bebe, beba menos:
qualquer redução reduz risco.
Mantenha peso saudável ao longo da vida, sem dietas
radicais.
Movimente-se todos os dias. Meta: 150 minutos por
semana de atividade moderada, ou 75 de vigorosa.
Coma comida de verdade: feijão, arroz, farinhas
regionais, frutas amazônicas, peixe, hortaliças, castanhas bem
conservadas. Deixe ultraprocessados para a exceção.
Reduza carne processada ao mínimo e modere a carne
vermelha.
Amamente, se puder — protege mãe e filho.
Proteja-se do sol: sombra entre 10h e 16h, roupa,
chapéu, protetor solar. Na linha do Equador, isso vale o ano
inteiro.
Vacine-se: HPV e hepatite B previnem câncer de
forma direta e comprovada.
Trate infecções que causam câncer: hepatites B e C
têm tratamento; H. pylori tem erradicação indicada em situações
específicas.
Cuide do ar que você respira: ventile a cozinha,
evite fogão a lenha em ambiente fechado, use proteção respiratória no
trabalho.
Faça os exames de rastreamento certos, na idade
certa — e apenas esses (ver Capítulos 10 e 12).
Nota técnica —
intervenções por força de evidência
Intervenção
Impacto esperado
Comentário
Cessação tabágica
Muito alto
Maior redução isolada de incidência e mortalidade; benefício em
qualquer idade
Vacinação HPV
Muito alto
Programas com alta cobertura já demonstraram redução de lesões
precursoras e de câncer invasivo
Vacinação hepatite B
Alto
Redução comprovada de carcinoma hepatocelular em coortes
vacinadas
Redução/eliminação de álcool
Alto
Efeito dose-dependente, sem limiar
Controle de peso e atividade física
Alto (populacional)
RR individual modesto, prevalência elevada → FAP alta
Fotoproteção
Alto para pele
Impacto maior quando iniciado na infância
Controle de exposição ocupacional
Alto em subgrupos
Requer vigilância, EPI e fiscalização
Erradicação de H. pylori em alto risco
Moderado
Estratégia populacional em avaliação; individualizada no Brasil
Quimioprevenção (tamoxifeno/raloxifeno; AAS em Lynch)
Seletivo
Uso restrito a alto risco, com avaliação especializada
Cirurgias redutoras de risco (mastectomia, salpingo-ooforectomia,
colectomia)
Muito alto em portadores
Somente com variante patogênica confirmada e aconselhamento
Meta prática para o profissional: a cada consulta de
rotina, registrar quatro itens — situação tabágica, consumo de álcool,
IMC e status de rastreamento. Esses quatro campos preenchidos
sistematicamente na Atenção Primária produzem mais prevenção do que
qualquer exame adicional.
Capítulo
10. Rastreamento no Brasil — o que está vigente em 2026
Aviso de atualização: políticas de rastreamento
mudam. As informações abaixo refletem as normas vigentes até
setembro de 2026. Antes de aplicar, confirme nas fontes
oficiais listadas no final do capítulo.
10.1 Câncer do colo do útero
O Ministério da Saúde publicou as Diretrizes Brasileiras para
o Rastreamento do Câncer do Colo do Útero incorporando o
teste molecular de DNA-HPV oncogênico como método
primário, em substituição gradual à citologia (Papanicolaou),
cuja implementação teve início em agosto de 2025 e segue de forma
faseada por estados.
População-alvo: mulheres e pessoas com colo do
útero de 25 a 64 anos.
Intervalo:a cada 5 anos após
resultado negativo (contra 3 anos no modelo citológico).
Citologia: passa a ser usada como triagem
reflexa em situações definidas (por exemplo, HPV positivo
não-16/18).
Modelo:rastreamento organizado,
com convite ativo pelas equipes de Saúde da Família e agentes
comunitários, e não mais oportunístico.
Justificativa: o teste molecular tem alto valor
preditivo negativo, permitindo intervalo maior com segurança.
Vacinação contra HPV (pilar complementar): esquema
de dose única para meninas e meninos de 9 a 14
anos desde 2024. Estratégia de resgate estendida a jovens de
15 a 19 anos não vacinados. Esquema de três
doses para imunocomprometidos (pessoas vivendo com HIV,
pacientes oncológicos, transplantados) e para usuários de PrEP de 15 a
45 anos; regras específicas para vítimas de violência sexual.
10.2 Câncer de mama
Atualização anunciada pelo Ministério da Saúde em setembro de
2025:
40 a 49 anos: acesso garantido à mamografia
sob demanda, por decisão compartilhada entre a pessoa e
o profissional, mesmo sem sinais ou sintomas — sem rastreamento
populacional obrigatório nessa faixa.
50 a 74 anos: rastreamento bienal
(faixa ampliada; antes ia até 69 anos).
Acima de 74 anos: decisão individualizada conforme
comorbidades e expectativa de vida.
Alto risco (variante patogênica, história familiar
significativa, radioterapia torácica prévia na juventude): protocolo
distinto, com início mais precoce e possível uso de ressonância
magnética — avaliação especializada.
Comunicação honesta obrigatória na faixa de 40 a 49
anos: benefício existe, mas é menor, e as taxas de
falso-positivo, de exames adicionais e de sobrediagnóstico são
proporcionalmente maiores. A decisão compartilhada é parte da técnica,
não formalidade.
Os dois lados, em números. A revisão independente do
Reino Unido estimou redução de cerca de 20% na
mortalidade por câncer de mama entre as mulheres convidadas ao
rastreamento e, simultaneamente, sobrediagnóstico da ordem de
19% dos cânceres diagnosticados durante o período de
rastreamento — aproximadamente 1 em cada 5 [49].
Benefício e dano do rastreamento
mamográfico por 10.000 mulheres
Figura 10.1 — O balanço, em frequências
naturais.
Para 10.000 mulheres convidadas a partir dos 50 anos, por 20
anos
1 morte evitada para cada ~235 mulheres convidadas; cerca de 3
sobrediagnósticos para cada morte evitada
Fonte: Independent UK Panel on Breast Cancer Screening, Lancet
2012 [49]. O próprio painel adverte que os números vêm de ensaios
antigos e devem ser tratados como guia aproximado, não como precisão
aparente. São dados britânicos: a magnitude no Brasil depende da
qualidade do programa e do acesso ao seguimento. Traduzindo para a
consulta: o rastreamento salva vidas e diagnostica
tumores que nunca teriam causado problema, sem que se possa saber, no
momento do diagnóstico, a qual grupo aquele tumor pertence. Quem
apresenta só o benefício está informando pela metade.
10.3 Câncer colorretal
Marco recente: o Ministério da Saúde adotou protocolo nacional de
rastreamento com teste imunoquímico fecal (FIT) e
incluiu o procedimento específico na Tabela SUS pela Portaria
SAES/MS nº 4.642, de 6 de agosto de 2026.
População-alvo: homens e mulheres
assintomáticos de 50 a 75 anos.
Método: pesquisa de sangue oculto nas fezes por
técnica imunoquímica (FIT), coleta única, domiciliar, sem preparo
intestinal nem restrição alimentar.
Periodicidade:bienal.
Conduta em caso positivo: encaminhamento para
colonoscopia, exame padrão-ouro, que permite
diagnóstico e remoção de pólipos.
Importante: FIT positivo não é diagnóstico
de câncer; a maioria dos positivos corresponde a outras causas
de sangramento.
Alto risco (fora do rastreamento populacional):
história familiar de câncer colorretal em parente de 1º grau, síndromes
hereditárias, doença inflamatória intestinal — início mais precoce e
colonoscopia como método, conforme avaliação individual.
10.4 Câncer de pulmão
O rastreamento com tomografia computadorizada de baixa dose
(TCBD) em tabagistas e ex-tabagistas de alto risco reduziu a
mortalidade por câncer de pulmão em dois grandes ensaios randomizados:
20% no NLST (EUA) [48] e 24% entre homens em 10
anos no NELSON (Holanda/Bélgica) [57]. Os danos também são
conhecidos e devem ser informados: alta taxa de achados falso-positivos,
procedimentos adicionais, exposição à radiação e sobrediagnóstico de uma
fração dos tumores detectados. No Brasil, não há programa
nacional de rastreamento populacional implantado no SUS até setembro de
2026; a prática ocorre em serviços selecionados, protocolos
institucionais e saúde suplementar.
Regra clínica: rastrear pulmão jamais substitui cessar o
tabagismo — a intervenção com maior impacto continua sendo
parar de fumar.
10.5 Câncer de próstata
Não há recomendação de rastreamento populacional organizado no SUS. A
conduta preconizada é decisão compartilhada e informada
a partir dos 50 anos (ou 45 anos em homens negros ou com história
familiar de primeiro grau), discutindo explicitamente: possibilidade de
detecção de tumores indolentes, riscos de biópsia, e consequências de
tratamento (incontinência, disfunção erétil).
10.6 O que
não deve ser oferecido como rastreamento
Marcadores tumorais séricos (CA 125, CEA, CA 19-9, AFP) em pessoas
assintomáticas e sem condição de risco definida.
“Check-up oncológico completo” com tomografia de corpo inteiro ou
PET-CT em assintomáticos.
Ultrassonografia de tireoide em assintomáticos sem fator de risco —
associada a epidemia de sobrediagnóstico.
Testes de detecção multicâncer no sangue (MCED) fora de protocolo de
pesquisa: ainda não validados para uso
populacional.
10.7 Calendário de
bolso — rastreamento no SUS (2026)
Câncer
Quem
Exame
Intervalo
Colo do útero
25–64 anos com colo
DNA-HPV (substituindo gradualmente a citologia)
5 anos após negativo
Mama
40–49 anos
Mamografia sob demanda, decisão compartilhada
Individualizado
Mama
50–74 anos
Mamografia
2 anos
Colorretal
50–75 anos
FIT (sangue oculto imunoquímico)
2 anos
Pele
Todos
Exame clínico da pele; autoexame
Contínuo
Cavidade oral
Adultos, sobretudo tabagistas/etilistas
Exame clínico odontológico
Anual
Capítulo
11. Regionalização: aplicando o mesmo livro em lugares diferentes
11.1 Por que regionalizar
Um plano de prevenção idêntico para um trabalhador de garimpo no
médio Solimões, uma professora em Porto Alegre e um executivo em Recife
é ineficiente. As prioridades mudam com o perfil de incidência, o perfil
de exposição e a estrutura de acesso disponível.
Colo do útero e mama (acesso e tempo até diagnóstico)
Câncer gástrico e de cavidade oral
Fotoproteção e exposição ocupacional rural
Centro-Oeste
Exposição a agrotóxicos e proteção ocupacional rural
Colorretal em ascensão
Mama e colo do útero
Sudeste
Colorretal e mama
Pulmão e cavidade oral (tabaco e álcool)
Exposição ocupacional industrial e poluição urbana
Sul
Pulmão e cavidade oral (maior carga tabágica histórica)
Melanoma e câncer de pele (pele clara + exposição rural)
Colorretal; atenção à variante TP53 p.R337H
11.3 Prioridades por
macrorregião mundial
Contexto
Foco preventivo dominante
Países de alta renda
Controle de obesidade e álcool; qualificação do rastreamento;
contenção de sobrediagnóstico
América Latina
Dupla carga: manter vacinação/rastreio de HPV e enfrentar obesidade
e ultraprocessados
África Subsaariana
Vacinação HPV, rastreamento de colo do útero, vacinação e tratamento
de hepatite B
Sul/Sudeste Asiático
Controle de tabaco sem fumaça e betel quid; HPV
Leste Asiático
H. pylori, HBV, dieta com alto teor de sal
11.4
Capítulo amazônico — prevenção onde o rio é a estrada
Barreiras reais: - Distâncias fluviais e
sazonalidade (seca e cheia alteram acesso). - Concentração de
mamógrafos, colonoscopia e patologia nas capitais. - Perda de seguimento
entre exame alterado e confirmação diagnóstica. - Custos indiretos:
transporte, acompanhante, dias sem trabalho.
Estratégias que funcionam no contexto: -
Autocoleta para teste de DNA-HPV, quando disponível,
elimina a barreira do exame ginecológico e da distância — estratégia
recomendada pela OMS para populações de difícil acesso. -
Rastreamento organizado com listas nominais pelas
equipes de Saúde da Família e agentes comunitários de saúde, com busca
ativa. - Unidades móveis e fluviais para mamografia e
coleta. - Telemedicina e telepatologia para reduzir
tempo até o laudo — inclusive teleconsulta de orientação e triagem antes
do deslocamento. - Vacinação em escolas e ações
extramuros, decisivas em municípios ribeirinhos.
Mitos regionais que atrapalham a prevenção (tratados
também no Capítulo 12): - A ideia de alimentos “remosos” causando ou
agravando câncer — não há base científica; a consequência prática é
restrição alimentar desnecessária e desnutrição, que pioram desfechos. -
Uso de garrafadas e preparos caseiros em substituição ao tratamento —
plantas amazônicas têm interesse científico legítimo em pesquisa
pré-clínica, mas nenhuma delas substitui prevenção comprovada ou
tratamento oncológico, e algumas apresentam hepatotoxicidade e
interações relevantes. - “Câncer é castigo” ou fatalidade — crença
associada a atraso diagnóstico.
Capítulo
12. Prevenção quaternária: quando o excesso vira dano
Em palavras simples
Fazer exames demais não é cuidar melhor. Exames sem indicação
encontram achados irrelevantes (“incidentalomas”), que levam a novos
exames, biópsias, ansiedade, custo e, às vezes, tratamento de doenças
que nunca causariam problema. Isso tem nome:
sobrediagnóstico.
Prevenir bem inclui saber o que não fazer.
Nota técnica
Conceitos-chave: -
Sobrediagnóstico: detecção de doença que jamais se
manifestaria clinicamente durante a vida da pessoa. Exemplos
documentados: carcinoma papilífero de tireoide em programas de
ultrassonografia indiscriminada; parte dos carcinomas ductais in situ;
parte dos tumores de próstata de baixo grau. -
Sobretratamento: consequência terapêutica do
sobrediagnóstico. - Cascata diagnóstica: achado
incidental → investigação → novo achado → intervenção. - Viés de
lead time e length time: explicam por que sobrevida aparente
melhora sem redução de mortalidade.
Boas práticas: 1. Solicitar exame apenas com
pergunta clínica definida e conduta que dependa do resultado. 2.
Comunicar benefícios e danos em números absolutos, não
em percentuais relativos. 3. Usar ferramentas de decisão compartilhada
em rastreamentos com balanço incerto (mama 40–49, próstata). 4.
Documentar a decisão do paciente informado. 5. Evitar transformar
prevenção em vigilância ansiosa: adesão sustentável exige
proporcionalidade.
PARTE V — PLANOS DE AÇÃO
ESCALONADOS
Capítulo 13. Seu
plano por década de vida
Fase
Foco principal
Ações concretas
Infância e adolescência (0–19)
Vacinar e proteger a pele
Vacina HPV (dose única, 9–14 anos; resgate 15–19), hepatite B,
fotoproteção, ambiente livre de fumo, hábito de atividade física
20–29
Base de hábitos e infecções
Não iniciar tabaco; álcool ao mínimo; teste de HIV/hepatites; início
do rastreamento de colo do útero aos 25; autoconhecimento da pele
30–39
História familiar e peso
Mapear a família (Módulo 1); controle de peso; atividade física
regular; avaliar aconselhamento genético se indicado
40–49
Decisões compartilhadas
Conversa sobre mamografia; controle de pressão, glicemia e peso;
revisão ocupacional; cessação tabágica se ainda fuma
50–64
Rastreamento pleno
Mamografia bienal (50–74); FIT bienal (50–75); colo do útero até 64;
conversa sobre próstata; avaliação de pulmão se alto risco tabágico
65–74
Manter e individualizar
Continuar mama e colorretal; avaliar comorbidades e expectativa de
vida; prevenção de quedas e fragilidade
75+
Proporcionalidade
Decisão individualizada; priorizar sintomas, qualidade de vida e
evitar rastreamento sem benefício
Capítulo 14. Plano de 90
dias (nível N2)
Regra: escolha no máximo duas
metas. Prevenção que fracassa é geralmente prevenção ambiciosa
demais.
Semana
Ação
1
Aplicar o AR-C completo e anotar a faixa (A–D)
2
Agendar a consulta correspondente à faixa; reunir cartão de vacina e
exames antigos
3–4
Iniciar a meta 1 (ex.: cessação tabágica na UBS; caminhada 30 min ×
5 dias)
5–6
Regularizar vacinação e testes de hepatites/HIV
7–8
Ajuste alimentar mínimo: reduzir carne processada e
ultraprocessados; incluir fruta e hortaliça diárias
9–10
Resolver pendências de rastreamento identificadas no Módulo 5
11–12
Revisão ambiental/ocupacional: EPI, ventilação da cozinha,
fotoproteção diária
13
Reaplicar o AR-C e comparar pontuação
Capítulo
15. Roteiro para o profissional de saúde (nível N4)
15.1 Consulta de prevenção
em 12 minutos
Perguntar (2 min): tabaco, álcool, peso/atividade,
rastreamento em dia, história familiar de 1º e 2º graus.
Aconselhar (2 min): mensagem clara, personalizada e
sem julgamento moral.
Avaliar (2 min): prontidão para mudança; barreiras
de acesso reais (transporte, custo, jornada).
Assistir (3 min): oferecer recurso concreto — grupo
de cessação do PNCT, agendamento do exame, encaminhamento genético.
Acompanhar (3 min): agendar retorno e registrar em
prontuário.
15.2 Genograma mínimo de três
gerações
Registrar, para cada parente afetado: parentesco, lado da
família, tipo de tumor, idade ao diagnóstico, bilateralidade, múltiplos
primários. A idade ao diagnóstico é o dado mais frequentemente
omitido — e o mais discriminante.
15.3 Indicadores para gestão
local
Cobertura de rastreamento de colo do útero e mama na população-alvo
adscrita.
Proporção de FIT positivos com colonoscopia realizada em até 60
dias.
Cobertura vacinal de HPV por dose única na faixa de 9 a 14
anos.
Percentual de prontuários com registro de status tabágico.
Tempo entre diagnóstico e início do tratamento (Lei nº 12.732/2012 —
prazo de 60 dias).
PARTE VI — PREVENÇÃO POR
TIPO DE CÂNCER
Cada capítulo desta parte segue a mesma estrutura, para consulta
rápida: quem tem mais risco → como reduzir → como detectar cedo
→ sinais de alerta → o que não fazer. As magnitudes citadas
remetem às tabelas do Capítulo 8A e às Referências.
Capítulo 16. Câncer de
pulmão
Por que importa: é o tumor que mais mata no mundo —
12,4% dos casos e 18,7% das mortes [1]. No Brasil, é o 3º mais incidente
em homens (7,3%) e o 4º em mulheres (6,4%) [2].
Fator de risco
Magnitude / observação
Tabagismo ativo
RR de 15 a 30 vezes; responde pela grande maioria dos casos
[30]
Fumo passivo
Carcinógeno do Grupo 1 [9]
Radônio domiciliar
Grupo 1; segunda causa em vários países [44]
Poluição do ar e material particulado
Grupo 1 [9]
Fumaça de biomassa em ambiente fechado
Risco relevante em população rural e ribeirinha [9]
Como reduzir. Parar de fumar é a intervenção mais
eficaz de toda a oncologia preventiva: parar aos 30 recupera cerca de 10
anos de expectativa de vida; aos 60, ainda cerca de 3 [31] — ver
Figura 7, no Capítulo 8B. Proibir o cigarro dentro de casa e do
carro protege quem não fuma. No trabalho, exigir e usar proteção
respiratória. Em casa, ventilar a cozinha e evitar fogão a lenha em
ambiente fechado.
Detecção precoce. TCBD reduz mortalidade em
populações de alto risco (20% no NLST; 24% em homens no NELSON) [48,57].
No Brasil não há programa populacional implantado no SUS até setembro de
2026 — a discussão deve ser individualizada em serviços com capacidade
de seguimento de nódulos. Radiografia de tórax não serve como
rastreamento e não deve ser oferecida com essa finalidade.
Sinais de alerta. Tosse nova ou modificada por mais
de 3 semanas; escarro com sangue; falta de ar progressiva; dor torácica
persistente; rouquidão; perda de peso; pneumonias de repetição no mesmo
local.
O que não fazer. Trocar o cigarro por narguilé ou
vape como “redução de dano” sem plano de cessação; usar suplementos de
betacaroteno (aumentaram a incidência em fumantes no ensaio ATBC) [38];
fazer TC anual por conta própria sem critério de elegibilidade e sem
serviço que dê seguimento aos achados.
Capítulo 17. Câncer de mama
Por que importa: é o mais incidente entre as
mulheres no Brasil — 30,0% dos casos [2] — e o que mais mata
mulheres.
Fator de risco
Magnitude / observação
Idade
Principal fator: quase 60% dos casos entre 50 e 74 anos [17]
Variante patogênica em BRCA1/2
Risco cumulativo de 62% a 72% até os 80 anos [41,42]
História familiar sem variante identificada
Risco elevado (até cerca do dobro do populacional) [41]
Álcool
RR 1,05 já em consumo leve; 1,61 em consumo pesado [32,33]
Excesso de peso após a menopausa
Evidência suficiente de causalidade [34]
Inatividade física
Efeito protetor da atividade independente do peso [35]
Menarca precoce, menopausa tardia, nuliparidade, primeira gestação
tardia
Maior exposição estrogênica cumulativa
Terapia hormonal combinada da menopausa
Aumento de risco, dependente de duração
Radioterapia torácica antes dos 30 anos
Risco alto; exige protocolo próprio
Amamentação
Fator protetor, com relação dose-resposta
Densidade mamária elevada
Aumenta risco e reduz sensibilidade da mamografia
Como reduzir. Reduzir ou eliminar álcool
(ver Figura 4); manter peso e atividade física;
amamentar quando possível; individualizar terapia hormonal. Em
portadoras de variante patogênica, a magnitude do risco muda de ordem de
grandeza — ver Figura 5. Em alto risco confirmado,
discutir medicações redutoras de risco e cirurgias redutoras de risco
com serviço especializado.
Detecção precoce. 40–49 anos: mamografia sob
demanda, com decisão compartilhada. 50–74 anos: mamografia
bienal. Acima de 74: individualizar [17]. Alto risco:
início precoce, possível ressonância anual quando o risco estimado ao
longo da vida for ≥ 20–25% [55].
Sinais de alerta. Nódulo endurecido e fixo; retração
da pele ou do mamilo; secreção sanguinolenta espontânea unilateral;
vermelhidão ou aspecto de “casca de laranja”; nódulo na axila; ferida no
mamilo que não cicatriza.
O que não fazer. Substituir mamografia por
termografia (sem validação para rastreamento); confiar apenas no
autoexame como método de rastreamento — ele não
substitui a mamografia, embora conhecer as próprias mamas ajude
a perceber mudanças; ignorar nódulo por ter mamografia recente
normal.
Capítulo 18. Câncer do
colo do útero
Por que importa: é o câncer mais evitável de todos,
e ainda assim está entre os mais incidentes no Norte e no Nordeste [3].
No Brasil, é o 3º entre mulheres (7,4%) [2].
Fator de risco
Observação
Infecção persistente por HPV oncogênico
Presente em praticamente todos os casos [9,14]
Não vacinação contra HPV
Vacina evita a infecção pelos tipos mais oncogênicos
Ausência de rastreamento
Principal determinante de diagnóstico tardio no Brasil
Tabagismo
Cofator estabelecido
Imunossupressão (HIV, transplante)
Progressão mais rápida das lesões
Múltiplas gestações, início precoce da atividade sexual, outras
ISTs
Cofatores
Como reduzir. Vacinação contra HPV: dose única aos
9–14 anos, resgate até 19 anos, três doses em imunocomprometidos e
usuários de PrEP de 15 a 45 anos [19]. O efeito populacional é o maior
já medido em prevenção oncológica: redução de 87% na
incidência entre mulheres vacinadas aos 12–13 anos na
Inglaterra [47] — ver Figura 6, no Capítulo 8B.
Preservativo reduz, mas não elimina a transmissão.
Detecção precoce. Teste de DNA-HPV
como método primário, dos 25 aos 64 anos, a cada 5 anos após resultado
negativo, em modelo de rastreamento organizado com
convite ativo [15,16]. Citologia como triagem reflexa. Onde o teste
molecular ainda não chegou, mantém-se a citologia conforme o fluxo local
— não espere a nova tecnologia para fazer o exame.
Sinais de alerta. Sangramento após relação sexual,
entre menstruações ou após a menopausa; corrimento persistente com odor;
dor pélvica persistente.
O que não fazer. Adiar o exame por não ter sintomas
(a lesão precursora é silenciosa); achar que quem tomou a vacina não
precisa de rastreamento (precisa); interromper o seguimento após um
resultado alterado sem concluir a investigação — a perda de
seguimento é, no Brasil, um problema maior do que a falta do exame
inicial.
Capítulo 19. Câncer
colorretal
Por que importa: é o segundo mais incidente
nos dois sexos no Brasil (10,3% em homens, 10,5% em mulheres)
[2], com incidência em ascensão, inclusive em adultos jovens.
Fator de risco
Magnitude / observação
Idade ≥ 50 anos
Base do rastreamento populacional
História familiar em parente de 1º grau
Risco aumentado; antecipa o início do rastreamento
Síndrome de Lynch, PAF, polipose associada a MUTYH
Risco muito alto; protocolo próprio [22,43]
Doença inflamatória intestinal de longa data
Risco aumentado; vigilância específica
Carne processada
+18% a cada 50 g/dia [37]
Carne vermelha
+17% a cada 100 g/dia [37]
Excesso de peso e sedentarismo
Evidência suficiente [34,35]
Álcool (consumo pesado)
RR 1,44 [33]
Tabagismo
Associação estabelecida
Fibras, grãos integrais, laticínios
Fatores protetores [11]
Relação dose-resposta entre carne
processada e câncer colorretal
Figura 19.1 — Dose importa. Cada 50 g diários de
carne processada associam-se a um aumento de cerca de 18% no risco
relativo de câncer colorretal [37]. Cinquenta gramas equivalem,
aproximadamente, a duas fatias de presunto ou a uma salsicha. Note que
se trata de aumento relativo: sobre um risco de base
moderado, o efeito individual é modesto — mas, como o consumo é
altíssimo na população, o efeito coletivo é grande.
Como reduzir. Reduzir carne processada ao mínimo;
moderar carne vermelha; aumentar fibras; manter peso e atividade física;
reduzir álcool; não fumar.
Detecção precoce. No SUS: FIT bienal dos 50
aos 75 anos, coleta domiciliar única, sem preparo nem restrição
alimentar (Portaria SAES/MS nº 4.642/2026) [18]. FIT positivo
não é diagnóstico — indica colonoscopia. Em alto risco,
colonoscopia direta e mais precoce. O ensaio NordICC mostrou redução de
18% na incidência em 10 anos com uma única colonoscopia oferecida, em
contexto de adesão de 42% [50].
Sinais de alerta. Sangue nas fezes (nunca atribua a
hemorroida sem investigar); mudança persistente do hábito intestinal;
fezes afiladas; anemia por deficiência de ferro sem causa aparente; dor
abdominal persistente; perda de peso.
O que não fazer. Repetir sangue oculto por métodos
antigos quando o FIT está disponível; ignorar sangramento em pessoa
jovem; deixar o FIT positivo sem colonoscopia — um rastreamento
que não conclui a investigação não salva ninguém.
Capítulo 20. Câncer de
próstata
Por que importa: é o mais incidente entre homens no
Brasil (30,5%) [2]. É também o exemplo clássico de tumor em que rastrear
demais causa dano.
Fator de risco
Observação
Idade
Fator dominante
História familiar em parente de 1º grau
Risco aumentado, maior se diagnóstico precoce no familiar
Ascendência negra
Incidência e mortalidade maiores; discussão a partir dos 45
anos
Variantes em BRCA2 (e BRCA1, HOXB13)
Risco aumentado, tumores mais agressivos [22]
Excesso de peso
Associado a doença avançada
Como reduzir. Não há intervenção com redução de
incidência comprovada. Peso saudável e atividade física estão associados
a menor risco de doença agressiva. Cuidado com
promessas: nenhum suplemento previne câncer de próstata; o
ensaio SELECT não mostrou benefício de vitamina E e selênio (e sinalizou
possível aumento de risco com vitamina E).
Detecção precoce. Não há rastreamento populacional
organizado no SUS. A conduta é decisão compartilhada a
partir dos 50 anos — ou dos 45 em homens negros ou com história familiar
de 1º grau —, explicando: PSA elevado pode ter causas benignas; a
biópsia tem riscos; muitos tumores detectados são indolentes; e
tratamentos podem causar incontinência e disfunção erétil. Vigilância
ativa é conduta legítima em doença de baixo risco.
Sinais de alerta. Sintomas urinários são
inespecíficos e mais frequentemente benignos; investigar dor óssea
persistente, hematúria e perda de peso.
O que não fazer. Fazer PSA “de rotina” sem conversa
prévia; repetir PSA sem intervalo definido; tratar automaticamente todo
tumor detectado.
Capítulo 21. Câncer de
estômago
Por que importa: é o 4º mais incidente entre homens
no Brasil (5,4%) e tem maior incidência entre homens do Norte e
Nordeste [2,3]. É um tumor de forte componente infeccioso e
alimentar.
Fator de risco
Observação
Helicobacter pylori
Grupo 1; principal fator, com alta prevalência no Brasil [9,39]
História familiar; CDH1 (gástrico difuso hereditário)
Risco alto; avaliação genética [22]
Cirurgia gástrica prévia
Risco tardio aumentado
Como reduzir. Diagnosticar e tratar H.
pylori em situações indicadas (úlcera, linfoma MALT, parentes de 1º
grau de caso de câncer gástrico, lesões precursoras); reduzir sal e
defumados; aumentar frutas e hortaliças; não fumar. A erradicação reduz
risco em cerca de um terço, com a ressalva de generalização citada na
Tabela A5 [39].
Detecção precoce. Não há rastreamento populacional
no Brasil. Endoscopia é indicada por sintomas dispépticos de
alarme ou vigilância de lesões precursoras — e é aqui que o
Norte perde tempo: acesso à endoscopia e ao laudo anatomopatológico.
Sinais de alerta. Dor ou queimação persistente no
estômago; saciedade precoce; vômitos repetidos; fezes escuras (melena);
anemia; perda de peso; dificuldade para engolir.
O que não fazer. Tomar inibidor de bomba de prótons
por meses sem investigar dispepsia persistente em maiores de 40–45 anos,
sobretudo com sinais de alarme — o remédio alivia o sintoma e atrasa o
diagnóstico.
Capítulo
22. Câncer de fígado (carcinoma hepatocelular)
Por que importa: é a 3ª causa de morte por câncer no
mundo (7,8%) [1] e tem relevância regional específica na Amazônia
Ocidental, área historicamente endêmica para hepatite B e para o vírus
delta [62].
Fator de risco
Observação
Hepatite B crônica
Principal causa mundial; prevenível por vacina
[40]
Coinfecção pelo vírus delta (HDV)
Progressão mais rápida para cirrose; endemicidade histórica na
Amazônia Ocidental [62]
Hepatite C crônica
Cura com antivirais reduz — mas não elimina — o risco
Cirrose de qualquer causa
Principal condição predisponente
Álcool
RR 2,07 em consumo pesado [33]
Doença hepática esteatótica associada a disfunção metabólica
Causa em crescimento, ligada a obesidade e diabetes
Aflatoxinas
Exposição crônica elevada, potencializada pela hepatite B [9]
Como reduzir. Vacinar contra hepatite B (o esquema
está disponível no SUS para todas as idades); testar hepatites B e C ao
menos uma vez na vida; tratar hepatite C; controlar álcool, peso e
diabetes; conservar bem alimentos.
Detecção precoce. Pessoas com
cirrose ou com hepatite B em critérios de risco têm
indicação de vigilância com ultrassonografia abdominal a cada 6
meses, com ou sem alfafetoproteína, conduzida por serviço
especializado. Isso não é rastreamento populacional: é vigilância de
grupo de risco.
Sinais de alerta. Dor no quadrante superior direito;
icterícia; ascite; perda de peso; piora de função hepática em quem já
tem doença hepática.
O que não fazer. Usar “chás e garrafadas para o
fígado”: vários preparados de uso popular têm potencial hepatotóxico e
podem piorar exatamente o órgão que se pretende proteger.
Capítulo
23. Câncer de pele: melanoma e não melanoma
Por que importa: o câncer de pele não melanoma é o
mais frequente do Brasil em ambos os sexos [2]. Na Amazônia, o índice
ultravioleta é elevado o ano inteiro, e a exposição é sobretudo
ocupacional.
Fator de risco
Observação
Radiação ultravioleta (solar)
Grupo 1 [9]; queimaduras solares na infância pesam muito
Câmaras de bronzeamento
Grupo 1; proibidas no Brasil (RDC ANVISA nº
56/2009) [45]
Pele clara, olhos claros, cabelos ruivos ou loiros, sardas
Fototipos I e II
Muitos nevos ou nevos atípicos
Risco aumentado para melanoma
História pessoal ou familiar de câncer de pele
Risco aumentado
Imunossupressão (transplante)
Risco muito aumentado de carcinoma espinocelular
Trabalho ao ar livre
Exposição cumulativa: pescadores, agricultores, mototaxistas,
trabalhadores de rio
Como reduzir. Sombra entre 10h e 16h; roupas, chapéu
de aba larga e óculos; protetor solar FPS 30 ou mais, reaplicado. O uso
regular de protetor solar reduziu a incidência de
melanoma em ensaio randomizado australiano com seguimento de longo prazo
[58]. Para trabalhadores expostos, fotoproteção é equipamento de
proteção, não vaidade.
Detecção precoce. Exame clínico da pele; autoexame
com a regra ABCDE (Assimetria, Bordas irregulares, Cor
variada, Diâmetro > 6 mm, Evolução) e o “sinal do patinho feio” — a
pinta que destoa das outras. Lesões que não cicatrizam em 3–4 semanas
devem ser avaliadas.
Sinais de alerta. Pinta que muda, coça ou sangra;
ferida que não cicatriza; lesão perolada com vasos na superfície; mancha
que cresce.
O que não fazer. Cauterizar lesões suspeitas sem
diagnóstico; usar “pomadas caseiras” em feridas crônicas; confiar em
bronzeamento “seguro” — não existe.
Capítulo 24.
Câncer de cavidade oral e orofaringe
Por que importa: a cavidade oral é o 5º tumor mais
incidente entre homens no Brasil (4,8%) [2], com maior frequência no Sul
e Sudeste, associada ao padrão de tabagismo e álcool [3].
Fator de risco
Magnitude / observação
Tabaco (todas as formas, inclusive mascado)
Grupo 1 [9]
Álcool
RR 5,13 para boca e faringe em consumo pesado [33]
Tabaco + álcool
Efeito multiplicativo, não aditivo
HPV oncogênico (sobretudo orofaringe)
Perfil crescente, em pacientes mais jovens e não fumantes
Exposição solar crônica (lábio)
Queilite actínica como lesão precursora
Má higiene bucal, próteses mal adaptadas, dentes fraturados
Trauma crônico como cofator
Como reduzir. Cessação de tabaco e álcool (o ganho é
o maior de toda a oncologia de cabeça e pescoço); vacinação contra HPV;
fotoproteção labial; cuidado odontológico regular.
Detecção precoce.Exame clínico da
boca — feito pelo dentista, pelo médico ou pela equipe de saúde
bucal da APS — é barato, rápido e a principal ferramenta disponível.
Leucoplasia e eritroplasia são lesões potencialmente malignas e exigem
avaliação.
Sinais de alerta. Ferida na boca que não cicatriza
em 3 semanas; mancha branca ou vermelha persistente; caroço no pescoço;
dor ou dificuldade para engolir; rouquidão persistente; dente que
amolece sem causa; sangramento sem motivo.
O que não fazer. Atribuir ferida persistente à
prótese sem reavaliar em 2–3 semanas; adiar consulta odontológica por
falta de dor — este é um tumor que não dói no
início.
Capítulo 25. Câncer de
esôfago
Fator de risco
Observação
Álcool
RR 4,95 para carcinoma escamoso em consumo pesado [33]
Tabaco
Grupo 1; sinergia com álcool
Bebidas muito quentes (> 65 °C)
Grupo 2A [9] — relevante em quem toma chimarrão, mate ou café
escaldando
Refluxo crônico e esôfago de Barrett
Precursor do adenocarcinoma
Obesidade
Associada ao adenocarcinoma
Baixo consumo de frutas e hortaliças
Fator de risco
Como reduzir. Reduzir álcool e tabaco; esperar a
bebida esfriar; tratar refluxo; controlar peso.
Detecção precoce. Não há rastreamento populacional.
Vigilância endoscópica é indicada em esôfago de Barrett
confirmado, conforme protocolo.
Sinais de alerta. Dificuldade progressiva para
engolir (primeiro sólidos, depois líquidos); dor ao engolir;
regurgitação; perda de peso; rouquidão.
O que não fazer. Considerar normal a dificuldade
para engolir “porque passou com água”. Disfagia progressiva é sintoma de
investigação imediata.
Capítulo
26. Câncer de tireoide — o capítulo do sobrediagnóstico
Por que importa: é o 5º mais incidente entre
mulheres no Brasil (5,1%) [2]. E é o exemplo mais bem documentado de
epidemia de diagnóstico sem epidemia de doença:
análises internacionais estimam que grande parte do aumento da
incidência em vários países corresponde a sobrediagnóstico, sem aumento
correspondente na mortalidade [59].
Padrão de sobrediagnóstico: incidência
crescente com mortalidade estável
Figura 26.1 — Como se reconhece uma epidemia de
diagnóstico. Quando a incidência sobe de forma acentuada e a
mortalidade permanece estável, a explicação mais provável não é que a
doença esteja aumentando, e sim que se esteja encontrando doença que não
causaria problema. Esquema ilustrativo do padrão descrito para o
câncer de tireoide em vários países [59] — não representa dados
brasileiros medidos.
Fator de risco real
Observação
Radiação ionizante na infância
Fator estabelecido
História familiar; NEM2 (RET)
Carcinoma medular — avaliação genética
Sexo feminino, idade
Maior incidência
Deficiência ou excesso de iodo
Associação populacional
Conduta sensata. Ultrassonografia de tireoide
não deve ser feita como rastreamento em pessoas assintomáticas e
sem fator de risco. Nódulo palpável, crescimento cervical,
rouquidão persistente ou linfonodo suspeito devem ser investigados.
Nódulos pequenos e de baixo risco podem ser acompanhados; nem todo
nódulo precisa de punção, e nem todo carcinoma papilífero pequeno
precisa de cirurgia imediata.
O que não fazer. Incluir ultrassom de tireoide em
“check-up completo”; operar por ansiedade; interpretar tireoidite ou
nódulo benigno como pré-câncer.
Capítulo 27. Câncer de
bexiga e de rim
Fator de risco
Observação
Tabagismo
Principal fator para bexiga; também associado ao rim
Aminas aromáticas (indústria de corantes, borracha, couro,
pintura)
Grupo 1 para bexiga [9]
Arsênico na água
Grupo 1 [9]
Esquistossomose (S. haematobium)
Associada ao carcinoma escamoso de bexiga (não endêmica no
Brasil)
Obesidade e hipertensão
Fatores para câncer renal
Doença renal crônica dialítica
Risco aumentado
Como reduzir. Cessação tabágica; proteção
ocupacional; controle de peso e pressão; água tratada.
Detecção precoce. Não há rastreamento populacional.
Hematúria (sangue na urina), mesmo indolor e única, exige
investigação — é o sinal mais importante e o mais
frequentemente ignorado.
O que não fazer. Tratar hematúria como “infecção
urinária” repetidamente sem investigar, sobretudo em fumantes acima de
40 anos.
Capítulo
28. Ovário, endométrio, testículo e pâncreas
Ovário. Sem rastreamento eficaz para população geral
— CA 125 e ultrassonografia não reduzem mortalidade em
assintomáticas e produzem cirurgias desnecessárias. Fatores de risco:
variantes em BRCA1/2 (risco cumulativo de 17% a 56%) [41,42],
síndrome de Lynch, nuliparidade, endometriose. Fatores protetores:
contraceptivos hormonais, multiparidade, amamentação, laqueadura. Em
portadoras de variante patogênica, a salpingo-ooforectomia
redutora de risco é a medida com maior impacto, em idade
definida por gene e planejamento reprodutivo. Sinais: distensão
abdominal persistente, saciedade precoce, dor pélvica, aumento da
frequência urinária — sintomas vagos que, quando persistentes
por semanas, merecem avaliação.
Endométrio. Fortemente associado à obesidade
(evidência suficiente) [34], diabetes, exposição estrogênica sem
oposição e síndrome de Lynch. Sangramento pós-menopausa é sinal
de investigação obrigatória — é o que permite diagnóstico
precoce em estádio inicial, com alta chance de cura. Não há rastreamento
populacional; em Lynch, protocolo específico.
Testículo. Tumor de adultos jovens, com alta taxa de
cura. Fatores: criptorquidia (mesmo corrigida), história familiar,
infertilidade. Não há rastreamento populacional recomendado, mas
conhecer o próprio corpo permite perceber aumento indolor,
endurecimento ou nódulo no testículo — que deve ser avaliado
sem constrangimento e sem demora.
Pâncreas. Fatores: tabagismo, obesidade, diabetes de
início recente após os 50 anos, pancreatite crônica, história familiar e
síndromes hereditárias (BRCA2, Lynch, Peutz-Jeghers, FAMMM).
Não há rastreamento para população geral; vigilância existe apenas para
grupos de risco genético definido, em centros especializados. Sinais:
icterícia indolor, dor epigástrica que irradia para o dorso, perda de
peso, diabetes de aparecimento súbito em adulto magro.
Capítulo
29. Cânceres do sangue e câncer infantojuvenil
Leucemias e linfomas. A maioria não tem causa
identificável e não há rastreamento. Fatores
estabelecidos: benzeno (leucemia mieloide aguda), radiação ionizante,
alguns agrotóxicos, quimioterapia prévia, HTLV-1 (leucemia/linfoma de
células T do adulto), EBV, HIV e imunossupressão. Prevenção realista =
controle de exposição ocupacional, triagem de HTLV-1 em bancos de sangue
e prevenção da transmissão vertical, e TARV em pessoas vivendo com
HIV.
Câncer infantojuvenil. É raro, em geral não
é prevenível e a mensagem correta não é prevenção, e sim
diagnóstico precoce. Sinais que devem levar a
avaliação: palidez e cansaço progressivos; manchas roxas ou sangramentos
sem trauma; febre prolongada sem causa; dor óssea persistente, sobretudo
noturna; massa abdominal; aumento de linfonodos persistente e
endurecido; dor de cabeça matinal com vômitos; reflexo branco na
pupila (leucocoria — pesquisar retinoblastoma); estrabismo de
início recente; perda de peso.
Nota de honestidade: não atribua câncer infantil a
alimentação, vacina, telefone celular ou “energia”. Isso não tem base
científica e produz culpa em famílias que já carregam o suficiente.
PARTE VII —
POPULAÇÕES E CONTEXTOS ESPECÍFICOS
Capítulo
30. Pessoas vivendo com HIV, transplantados e imunossuprimidos
A imunossupressão altera a história natural de vários tumores,
sobretudo os de causa viral.
Situação
Risco aumentado
Conduta preventiva
Pessoas vivendo com HIV
Sarcoma de Kaposi, linfomas, colo do útero, ânus, pulmão,
fígado
TARV contínua; rastreamento cervical em intervalo mais curto que o
da população geral; vacinação HPV em três doses; cessação tabágica (o
tabagismo é hoje causa importante de morte nessa população)
Transplantados de órgão sólido
Pele (sobretudo espinocelular), linfoproliferativos pós-transplante,
lábio, rim
Fotoproteção rigorosa e exame dermatológico periódico; vacinação
antes do transplante; vigilância conforme protocolo do serviço
Uso prolongado de imunossupressores e imunobiológicos
Pele e linfoproliferativos
Avaliação dermatológica; atualização vacinal; discussão de
risco-benefício
Usuários de PrEP (15 a 45 anos)
HPV
Vacinação em três doses [19]
Regra prática: em imunossupressão, o intervalo de
rastreamento pode ser menor e o limiar de investigação de sintomas deve
ser mais baixo. Nunca reduza o rastreamento por achar que “a pessoa já
tem problemas demais”.
Capítulo
31. Pessoas trans, não binárias e intersexuais
O princípio é simples e frequentemente esquecido: rastreie o
órgão, não o documento.
Se a pessoa tem
Rastreamento aplicável
Colo do útero (incluindo homens trans que não fizeram
histerectomia)
DNA-HPV / citologia, 25 a 64 anos — a população-alvo oficial das
diretrizes brasileiras inclui explicitamente homens transgênero e
pessoas não binárias com colo do útero [15,40]
Tecido mamário (mulheres trans em hormonioterapia prolongada; homens
trans sem mastectomia)
Mamografia conforme faixa etária e tempo de hormonioterapia, com
avaliação individualizada
Próstata (mulheres trans, salvo prostatectomia)
Discussão compartilhada como em qualquer pessoa com próstata
Barreiras reais: constrangimento, experiências
prévias de discriminação e ausência de campo adequado nos sistemas de
informação levam a subrastreamento. Acolhimento com nome social e
linguagem correta não é gentileza acessória: é o que determina se a
pessoa volta para fazer o exame.
Capítulo
32. Pessoas idosas: quando continuar e quando parar
Rastrear é apostar em benefício futuro. Esse benefício leva anos para
aparecer; os danos aparecem imediatamente.
Situação
Orientação
Expectativa de vida estimada > 10 anos, sem comorbidade
limitante
Manter rastreamento conforme faixas (mama até 74; colorretal até
75)
Expectativa de vida < 5 anos, comorbidades graves, fragilidade
avançada
Suspender rastreamento — os danos superam o benefício
Faixa intermediária
Decisão individualizada e compartilhada, considerando valores da
pessoa
Sintoma novo em qualquer idade
Sempre investigar — isso não é rastreamento, é
diagnóstico
Como dizer isso sem soar como abandono: “não vamos
mais fazer esse exame preventivo porque ele não traria benefício ao
senhor nos próximos anos, e poderia trazer incômodos. Continuamos
cuidando de tudo o que causar sintoma.” Interromper rastreamento é
decisão clínica ativa, não desistência.
Capítulo
33. Povos indígenas, ribeirinhos e comunidades tradicionais
A prevenção precisa chegar onde a estrada é o rio.
Barreiras documentadas: distância e sazonalidade
fluvial; custo de deslocamento e do acompanhante; ausência de serviços
de patologia próximos; rotatividade de profissionais; barreira
linguística e cultural; desconfiança historicamente fundamentada.
O que funciona:
Autocoleta para teste de DNA-HPV — reduz
simultaneamente a barreira do deslocamento e a do exame ginecológico,
estratégia recomendada pela OMS para populações de difícil acesso
[14].
Rastreamento organizado com listas nominais
conduzido por agentes comunitários e equipes de Saúde da Família
Ribeirinha e Fluvial.
Ações extramuros e vacinação em escolas — decisivas
para a cobertura de HPV.
Telessaúde e telepatologia para reduzir tempo até o
laudo e evitar deslocamentos desnecessários.
Articulação com o Subsistema de Atenção à Saúde Indígena
(SASI-SUS/DSEI), respeitando protocolos próprios e mediação
cultural.
O que não funciona: campanha pontual sem fluxo de
confirmação diagnóstica. Levar o exame sem levar o caminho do resultado
gera frustração, perda de seguimento e descrédito duradouro.
Capítulo
34. Quem já teve câncer: prevenir o segundo tumor
Sobreviver a um câncer não zera o risco — em muitos casos, o
aumenta.
Situação
Prevenção específica
Tabagismo mantido após o diagnóstico
Cessação melhora resposta ao tratamento e reduz segundo
primário
Câncer de cabeça e pescoço ou esôfago
Risco alto de segundo primário no trato aerodigestivo — vigilância
clínica e cessação de tabaco e álcool
Radioterapia torácica antes dos 30 anos
Rastreamento mamário precoce e intensificado
Portadoras de variante patogênica
Vigilância do órgão contralateral e demais órgãos do espectro
Sobreviventes de câncer infantojuvenil
Seguimento de longo prazo com protocolo próprio para efeitos
tardios
Todos
Manter rastreamentos habituais de outros órgãos — frequentemente
esquecidos durante o seguimento oncológico
Erro comum: a pessoa faz tomografias de seguimento a
cada seis meses e está há oito anos sem mamografia ou sem preventivo.
Seguimento oncológico não substitui rastreamento dos
demais órgãos.
Capítulo
35. Trabalhadores expostos: prevenção, direitos e notificação
O que o trabalhador deve saber.
Você tem direito a saber quais agentes existem no seu ambiente de
trabalho.
O equipamento de proteção deve ser fornecido, adequado e substituído
— e é obrigação da empresa.
Exames ocupacionais periódicos são direito, não favor.
Guarde seu histórico de trabalho: função, empresa, período e
produtos manuseados. Em tumores de latência longa, essa lista é o que
permite reconhecer o nexo anos depois.
O que o profissional de saúde deve fazer.
Registrar a história ocupacional em prontuário, com
linha do tempo.
Notificar suspeita de câncer relacionado ao trabalho no
SINAN.
Emitir CAT quando aplicável; a emissão pode ser
feita também pelo médico assistente.
Encaminhar ao CEREST de referência.
Direitos da pessoa com câncer no Brasil (síntese):
início do tratamento em até 60 dias após o diagnóstico confirmado (Lei
nº 12.732/2012) [20]; realização de exames diante de suspeita de
neoplasia maligna em até 30 dias (Lei nº 13.896/2019) e demais direitos
consolidados no Estatuto da Pessoa com Câncer (Lei nº 14.238/2021) [65].
Outros direitos usualmente aplicáveis incluem isenção de imposto de
renda sobre proventos de aposentadoria em casos previstos em lei, saque
de FGTS e PIS/PASEP, e auxílio-doença ou aposentadoria por incapacidade
conforme avaliação do INSS. Verifique sempre a legislação
vigente e busque orientação no serviço social da unidade de
saúde.
PARTE VIII — FERRAMENTAS DE
APLICAÇÃO
Capítulo 36. Mitos e
verdades
Afirmação
Veredito
Por quê
“Câncer é destino, não dá para evitar”
Mito
Estimativas brasileiras atribuem cerca de 34% dos casos e 42% das
mortes a fatores modificáveis [6]
“Se ninguém na família teve, não preciso me preocupar”
Mito
A maioria dos casos ocorre sem história familiar; a idade é o
principal fator
“Cigarro eletrônico é seguro”
Mito
Não é opção segura nem estratégia de cessação recomendada de forma
isolada
“Beber pouco não faz mal”
Parcialmente falso
Para mama, o risco aumenta já em consumo leve [32,33]
“Vitamina em dose alta previne câncer”
Mito
Betacaroteno aumentou a incidência de câncer de
pulmão em fumantes [38]
“Adoçante causa câncer”
Simplificação
A IARC classificou o aspartame como possivelmente carcinogênico
(Grupo 2B) com evidência limitada, mantendo a ingestão diária aceitável
estabelecida; o problema maior das bebidas açucaradas continua sendo o
ganho de peso
“Micro-ondas e celular causam câncer”
Sem evidência de causalidade
Radiação não ionizante; campos de radiofrequência são Grupo 2B, sem
demonstração de causalidade
“Desodorante e sutiã causam câncer de mama”
Mito
Sem qualquer base científica
“Biópsia espalha o câncer”
Mito
Crença que atrasa diagnóstico e custa vidas
“Açúcar alimenta o tumor, é preciso cortar tudo”
Mito
Restrições radicais causam desnutrição, que piora o prognóstico
“Alimento remoso piora o câncer”
Mito regional
Sem base científica; a consequência prática é restrição alimentar e
perda de peso
“Se não dói, não é grave”
Mito perigoso
A maioria dos tumores iniciais é indolor
“Fazer exames demais é sempre bom”
Mito
Sobrediagnóstico e cascata diagnóstica causam dano real
“Quem tomou vacina de HPV não precisa de preventivo”
Mito
A vacina não cobre todos os tipos oncogênicos
“Amamentar protege”
Verdade
Efeito protetor com relação dose-resposta [11]
“Exercício previne câncer”
Verdade parcial e importante
Associado a menor risco em 13 de 26 tipos [35]
“Parar de fumar depois dos 60 não adianta”
Mito
Ainda se recuperam cerca de 3 anos de expectativa de vida [31]
“Plantas amazônicas curam câncer”
Mito
Há interesse legítimo em pesquisa pré-clínica; nenhuma substitui
prevenção ou tratamento, e algumas são hepatotóxicas
“Câncer é contagioso”
Mito
Mas alguns vírus que causam câncer são transmissíveis (HPV, HBV,
HCV, HTLV-1)
“Estresse causa câncer”
Não comprovado
Não há evidência de causalidade direta; o estresse influencia
hábitos, e é por aí que o efeito indireto ocorre
Capítulo
37. Como montar o genograma da sua família
Cinco minutos de conversa em um almoço de família valem mais do que
qualquer painel genético comprado por impulso.
O que perguntar sobre cada parente:
Qual foi o tipo de câncer (o órgão de origem, não onde apareceu
depois)?
Com que idade foi diagnosticado? — o dado mais
importante e o mais esquecido.
De que lado da família (pai ou mãe)?
Teve mais de um câncer na vida?
Foi bilateral (as duas mamas, os dois rins)?
Alguém já fez teste genético? Qual foi o resultado?
Modelo para preencher:
Parente
Lado
Parentesco
Tipo de câncer
Idade ao diagnóstico
Observações
Dicas. Registre também quem não
teve câncer e chegou a idade avançada. Confirme diagnósticos com laudos
quando possível — memória familiar frequentemente troca “câncer no
fígado” (metástase) pelo tumor de origem. Atualize a cada caso novo.
Leve o quadro impresso à consulta.
Capítulo 38.
Alimentação amazônica na prática
A evidência internacional recomenda padrões alimentares, não
alimentos isolados. Traduzir isso para a mesa da região é mais eficaz do
que importar listas de superalimentos.
O que a evidência recomenda
Como isso aparece na mesa amazônica
Base de alimentos in natura e minimamente processados
Peixe de rio, farinha de mandioca, tucupi, macaxeira, banana,
feijão, arroz
Muitas frutas e hortaliças
Açaí (sem excesso de açúcar e xarope), cupuaçu, taperebá, bacuri,
buriti, graviola, jambu, maxixe, quiabo, couve, chicória
Boas fontes de proteína com menos carne processada
Peixes regionais (tambaqui, pirarucu, jaraqui), ovos, feijão,
castanha-do-brasil bem conservada
Fibras e grãos integrais
Feijões, arroz integral, milho, castanhas
Limitar carne processada e churrasco frequente
Reduzir salsicha, mortadela, presunto e carnes muito tostadas
Limitar bebidas açucaradas e ultraprocessados
Refrigerante, suco em pó, biscoito recheado, macarrão
instantâneo
Cuidado com armazenamento
Umidade alta favorece mofo em castanhas e grãos — conservar seco e
descartar material mofado
Sobre o açaí: é um alimento tradicional e nutritivo;
o problema não é o açaí, é o açúcar, o leite condensado e o xarope
adicionados na versão comercial. Não existe evidência de que o
açaí previna ou trate câncer.
Sobre o “remoso”: a classificação popular de
alimentos como remosos não tem base científica. Em pessoas com câncer,
essa crença retira justamente as fontes de proteína mais acessíveis
(peixe, ovo, carne) em um momento em que a perda de peso piora o
prognóstico. Desmontar esse mito é ação preventiva e terapêutica.
Capítulo
39. Como conversar com o profissional de saúde
Dez perguntas que você tem o direito de fazer:
Considerando minha idade e minha história, quais exames preventivos
eu deveria estar fazendo?
Este exame que o senhor pediu é para rastrear ou para investigar um
sintoma?
Qual é o benefício deste exame, em números? E qual é o risco?
O que acontece se der alterado? Qual é o próximo passo?
Se eu não fizer, o que muda?
Minha história familiar indica avaliação genética?
Onde eu faço este exame pelo SUS e quanto tempo costuma
demorar?
Este sintoma que tenho há semanas precisa de investigação
agora?
Existe algo que eu possa mudar hoje que reduza meu risco de forma
comprovada?
Quando devo voltar?
Como se preparar. Leve a ficha do AR-C preenchida, o
genograma, a lista de medicamentos, o cartão de vacinas e os exames
anteriores. Anote as respostas. Se possível, vá acompanhado.
Se você é o profissional: as mesmas dez perguntas
funcionam como roteiro de consulta preventiva. Responder à pergunta 3 em
números absolutos é o que diferencia informação de
persuasão.
Capítulo 40.
Como este livro pode estar errado
Todo livro de saúde envelhece. Este declara como e onde.
Dados de incidência mudam a cada triênio. As
estimativas do INCA são projeções, não contagens, e o próprio Instituto
adverte que edições diferentes não devem ser comparadas entre
si, porque metodologia e cobertura mudam [3].
Políticas de rastreamento mudam. As regras
descritas no Capítulo 10 valem até setembro de 2026. Confirme nas fontes
oficiais antes de aplicar.
Estimativas de risco variam entre estudos e
populações. A maioria dos modelos e coortes citados foi
construída em populações de ascendência majoritariamente europeia; a
transferibilidade para a população brasileira miscigenada é
imperfeita.
O instrumento AR-C não é validado. Ele é um
checklist de conduta com pesos ordinais, construído a partir de
critérios reconhecidos. Não é um escore calibrado e não deve ser
apresentado como tal.
Associação não é causalidade, e classificações da
IARC medem força da evidência, não magnitude de
risco.
Reduções relativas impressionam mais do que
merecem. Uma redução de 20% sobre um risco pequeno é um ganho
absoluto pequeno para o indivíduo, ainda que relevante para a
população.
Toda recomendação tem dano associado. Onde não
citei o dano, cite-o você.
Como manter atualizado: consulte anualmente o portal
do INCA (números e prevenção), as PCDT e diretrizes do Ministério da
Saúde, e o Global Cancer Observatory da IARC. Se este exemplar tem mais
de três anos, trate os capítulos 3, 10 e 8A como material histórico e
verifique os números vigentes.
Capítulo 43. Vacinas
que previnem câncer
Duas vacinas do calendário brasileiro previnem câncer de forma direta
e comprovada. Nenhuma outra medida preventiva individual tem efeito
equivalente por dose aplicada.
Em palavras simples
Vacinar contra o HPV evita a infecção que causa praticamente todos os
cânceres de colo do útero, além de parte dos cânceres de ânus, pênis,
vulva, vagina e garganta. Vacinar contra a hepatite B evita a infecção
que é a principal causa mundial de câncer de fígado.
Não é promessa: é resultado já medido. Na Inglaterra, entre as
meninas que receberam a vacina aos 12–13 anos, os casos de câncer de
colo do útero caíram 87% em comparação com as gerações
não vacinadas [47]. Em Taiwan, a vacinação universal contra hepatite B
reduziu o câncer de fígado em crianças [40].
Nota técnica
43.1 HPV
Item
Situação no Brasil (setembro de 2026)
Esquema de rotina
Dose única para meninas e meninos de 9 a 14
anos, desde 2024 [19]
Resgate
Jovens de 15 a 19 anos não vacinados, em estratégia
prorrogada [19]
Historicamente maior em meninas que em meninos; ambas abaixo da meta
de 90% pactuada com a OMS para 2030
Pontos que o profissional precisa saber
responder:
“A vacina é segura?” É uma das vacinas mais
estudadas em uso; os eventos adversos mais comuns são locais e
transitórios. Síncope após a aplicação em adolescentes é reação ao
procedimento, não ao imunizante — por isso a observação após a
dose.
“Vacinar não estimula a iniciação sexual?” Não há
evidência que sustente essa preocupação; ela é recorrente e precisa ser
respondida com naturalidade.
“Se eu já tive HPV, adianta?” A vacina não trata
infecção existente, mas protege contra os tipos ainda não
adquiridos.
“Meninos também?” Sim. Previne cânceres de pênis,
ânus e orofaringe e reduz a circulação do vírus.
“Vacinado dispensa preventivo?” Não. A vacina não
cobre todos os tipos oncogênicos; o rastreamento continua.
Os três pilares da eliminação do câncer do colo do útero
(meta da OMS): 90% das meninas vacinadas até os 15 anos, 70%
das mulheres rastreadas com teste de alta performance aos 35 e aos 45
anos, e 90% das mulheres com lesão ou câncer adequadamente tratadas
[14]. O Brasil avança no primeiro e no segundo pilar; o gargalo,
sobretudo no Norte, está no terceiro — tratar quem já teve exame
alterado.
43.2 Hepatite B
Item
Situação
Esquema
Três doses; disponível no SUS em qualquer idade,
para quem não tem esquema completo
Recém-nascidos
Primeira dose nas primeiras 12–24 horas de vida — medida crítica
para bloquear transmissão vertical
Grupos prioritários
Profissionais de saúde, pessoas que vivem com portadores, pacientes
renais crônicos, pessoas privadas de liberdade, populações ribeirinhas e
indígenas em áreas de alta endemicidade
Efeito oncológico
Redução da incidência de carcinoma hepatocelular em coortes
vacinadas [40]
Nota amazônica: a Amazônia Ocidental é área
historicamente endêmica para hepatite B e para o vírus delta (HDV) [62].
Nessa região, completar o esquema vacinal e testar a população adulta
não é rotina burocrática — é a principal medida disponível contra o
câncer de fígado. Quem se protege contra a hepatite B protege-se também
contra o delta, que depende do vírus B para infectar.
43.3 O que não
previne câncer
Nenhuma outra vacina do calendário tem efeito oncológico direto
comprovado. Vacinas de influenza, COVID-19, tétano e demais imunizantes
protegem contra outras doenças — inclusive em pacientes oncológicos,
para os quais são recomendadas —, mas não são medidas
de prevenção de câncer, e apresentá-las como tal é exagero que corrói a
credibilidade das duas que realmente funcionam.
Capítulo
41. Comunicar risco sem assustar e sem enganar
A maior parte dos erros de prevenção não está no exame — está na
frase que o acompanha.
Em palavras simples
Números de saúde costumam ser apresentados do jeito que impressiona,
não do jeito que informa. “Reduz o risco em 50%” pode significar cair de
2 casos em 100 para 1 caso em 100. É metade, sim — mas o ganho real é de
1 pessoa em 100, e as outras 99 não mudaram de situação. Saber ler isso
é o que permite decidir com calma.
Nota técnica
Use frequências naturais, não percentuais relativos.
Em vez de “reduz 20% a mortalidade”, diga “de cada 1.000 mulheres
rastreadas por 20 anos, cerca de X morrem de câncer de mama, contra Y
sem rastreamento”. Estudos de comunicação em saúde mostram
consistentemente que frequências naturais com denominador
constante melhoram a compreensão de pacientes e de
profissionais.
Apresente sempre os quatro números:
Pergunta
O que informar
Quantos se beneficiam?
Benefício em números absolutos, por 1.000 pessoas
Quantos são prejudicados?
Falso-positivos, procedimentos, sobrediagnóstico
Em quanto tempo?
Horizonte do benefício (geralmente 10 anos ou mais)
E se eu não fizer?
O risco de base, sem intervenção
Erros de comunicação que produzem dano:
Só o risco relativo. Infla a percepção de
benefício.
Sobrevida como prova de eficácia. Vieses de
lead time e length time fazem a sobrevida melhorar sem
que ninguém viva mais.
Culpabilização. “Você teve câncer porque comeu
errado” é falso e cruel — a maioria dos casos não tem causa individual
identificável.
Certeza onde há incerteza. “Esse exame vai garantir
que você não tem nada” é uma frase que não existe em medicina.
Medo como motor. Funciona no curto prazo e destrói
adesão no longo prazo. A prevenção que dura é a que cabe na vida da
pessoa.
Frases que funcionam melhor:
“Esse exame ajuda, mas não é perfeito. Deixe eu te explicar o que
ele encontra e o que ele deixa passar.”
“Existem duas escolhas razoáveis aqui. A decisão depende do que te
incomoda mais: a chance de descobrir tarde ou a chance de tratar algo
que não precisaria.”
“Você não causou isso. Vamos cuidar do que dá para cuidar daqui para
frente.”
“Se em três semanas isso não tiver melhorado, quero te ver de
novo.”
Regra final: se a frase serve para convencer, mas
não sobreviveria a uma pergunta do tipo “e qual é o risco disso?”, ela
não é comunicação — é persuasão.
Capítulo
42. Implantar rastreamento organizado na Atenção Primária: roteiro de 12
semanas
Destinado a equipes de Saúde da Família, coordenações municipais e
gestores. O objetivo é sair do modelo oportunístico (quem procura, faz)
para o organizado (a equipe convida, acompanha e conclui).
Semana
Ação
Produto esperado
1
Definir a população-alvo adscrita por faixa etária e sexo/órgão
Lista nominal extraída do e-SUS APS
2
Auditar cobertura atual dos três rastreamentos (colo, mama,
colorretal)
Percentual de cobertura por microárea
3
Mapear a capacidade instalada: coleta, laboratório, mamógrafo,
colonoscopia, patologia
Mapa de gargalos com tempos médios
4
Pactuar fluxo de confirmação diagnóstica com a referência
Fluxograma assinado, com contato responsável
5
Capacitar a equipe: coleta do DNA-HPV, orientação do FIT,
comunicação de risco
Equipe treinada; material impresso disponível
6
Definir o sistema de convite (ACS, telefone, mensagem, busca ativa
domiciliar)
Rotina semanal de convites definida
7–8
Início dos convites por microárea, priorizando quem nunca fez
Primeiras coletas registradas
9
Implantar o registro de resultados alterados com
responsável nomeado
Planilha ou painel de acompanhamento
10
Busca ativa dos exames alterados sem retorno
Zero perdas não justificadas
11
Ações extramuros e vacinação em escolas (HPV)
Cobertura vacinal da faixa 9–14 aferida
12
Avaliação: cobertura, tempo até o laudo, tempo até a
confirmação
Relatório e ajuste do ciclo seguinte
Cinco indicadores que importam mais do que o número de exames
feitos:
Cobertura da população-alvo (não do total atendido).
Proporção de exames alterados com conclusão
diagnóstica em prazo definido.
Tempo entre coleta e entrega do resultado.
Tempo entre diagnóstico e início do tratamento (Lei nº 12.732/2012 —
60 dias) [20].
Proporção de prontuários com status tabágico registrado.
Erro mais comum na implantação: ampliar a oferta de
exames sem garantir a etapa seguinte. Um programa que coleta muito e
conclui pouco gera sobrecarga, ansiedade e desconfiança — e não reduz
mortalidade. Rastreamento sem fluxo de confirmação não é
prevenção; é produção de exames.
Adaptação amazônica. Onde a equipe é fluvial, o
ciclo de 12 semanas vira ciclo de duas viagens: a primeira leva convite,
coleta e vacinação; a segunda traz resultado e conduz o encaminhamento.
Planejar as duas antes de iniciar a primeira evita a
perda de seguimento que é, hoje, a principal causa de diagnóstico tardio
na região.
ANEXOS
Anexo A — Ficha imprimível do
AR-C
Reproduza esta página. Uma via fica com você, outra vai para a
consulta.
Critérios (Capítulo 8C): C1 Maços-ano e
elegibilidade para rastreamento de pulmão · C2 IMC e circunferência
abdominal · C3 AUDIT-C · C4 Amsterdam II · C5 Limiares em câncer de mama
· C6 Semáforo do AR-C · C7 Fator → ação → onde.
Figuras do painel (Capítulo 8B): 1 Carga por tipo no
Brasil · 2 Incidência e mortalidade no mundo · 3 Percepção da população
brasileira · 4 Álcool e dose-resposta · 5 Risco em portadoras de
variante BRCA · 6 Eficácia comparada das intervenções · 7 Anos de vida
ganhos com a cessação do tabagismo.
Figuras distribuídas no texto: 1.1 Onde cada tipo de
prevenção age (Cap. 1) · 2.1 Risco relativo × risco absoluto (Cap. 2) ·
3.1 Extremos de incidência no mundo (Cap. 3) · 4.1 Hereditário ×
esporádico (Cap. 4) · 6.1 Cânceres atribuíveis a infecções (Cap. 6) ·
10.1 Benefício e dano da mamografia (Cap. 10) · 19.1 Carne processada e
dose-resposta (Cap. 19) · 26.1 Padrão do sobrediagnóstico (Cap. 26).
Anexo I —
Roteiro de anamnese ocupacional e ambiental
Uma página para colar no prontuário ou preencher antes da
consulta.
Linha do tempo de trabalho (do mais antigo ao
atual):
Período
Função
Empresa / local
Produtos, poeiras, fumaças, vapores
Usava EPI?
Perguntas complementares:
Alguém do seu trabalho adoeceu de forma parecida? ( ) sim ( )
não
Já trabalhou com amianto, sílica, benzeno, solventes, formaldeído,
agrotóxicos ou metais? ( ) sim ( ) não — quais: __________
Trabalha exposto ao sol a maior parte do dia? ( ) sim ( ) não
Como é a moradia? Ventilação: ______ Tipo de fogão: ______ Fonte de
água: ______
Mora perto de área industrial, garimpo, mineração ou lavoura com
pulverização? ( ) sim ( ) não
Faz exames ocupacionais periódicos? ( ) sim ( ) não
Condutas a considerar: orientação sobre EPI;
solicitação de exames pertinentes; notificação no SINAN em caso de
suspeita de câncer relacionado ao trabalho; emissão de CAT;
encaminhamento ao CEREST.
Anexo
J — Modelo de encaminhamento para aconselhamento genético
Ajuste ao seu serviço. O que não pode faltar é a idade ao
diagnóstico de cada familiar.
Motivo do encaminhamento (marcar os aplicáveis): ( )
Câncer de mama ≤ 45 anos ( ) Mama triplo-negativo ≤ 60 anos ( ) Mama
masculina ( ) Câncer de ovário/tuba/peritônio em qualquer idade ( )
Câncer colorretal ou de endométrio ≤ 50 anos ( ) dMMR/MSI-H ( ) ≥ 10
adenomas colorretais cumulativos ( ) Carcinoma adrenocortical ( )
Sarcoma < 45 anos ( ) Retinoblastoma ( ) Feocromocitoma/paraganglioma
( ) Câncer gástrico difuso < 50 anos ( ) Dois ou mais tumores
primários no mesmo indivíduo ( ) Variante patogênica já identificada em
familiar: __________________
Antes de solicitar qualquer exame em pessoa assintomática,
responda:
( ) Existe recomendação vigente para este exame nesta faixa etária e
neste perfil de risco?
( ) A conduta muda conforme o resultado?
( ) O serviço tem como concluir a investigação se der alterado?
( ) A pessoa foi informada do benefício e do dano,
em números absolutos?
( ) A pessoa participou da decisão?
( ) O resultado será entregue e registrado, com responsável
definido?
Se alguma resposta for “não”, o exame provavelmente não deve
ser pedido agora.
Exames que não devem ser oferecidos como rastreamento em
assintomáticos: marcadores tumorais (CA 125, CEA, CA 19-9,
AFP); tomografia de corpo inteiro ou PET-CT de “check-up”;
ultrassonografia de tireoide sem fator de risco; testes de detecção
multicâncer no sangue (MCED) fora de protocolo de pesquisa; radiografia
de tórax para rastrear câncer de pulmão.
REFERÊNCIAS
Todas as fontes abaixo são reais, públicas e verificáveis. Datas de
acesso: setembro de 2026.
Epidemiologia
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2022: GLOBOCAN estimates of incidence and mortality worldwide for 36
cancers in 185 countries. CA: A Cancer Journal for Clinicians,
v. 74, n. 3, p. 229-263, 2024. DOI: 10.3322/caac.21834.
INSTITUTO NACIONAL DE CÂNCER (INCA). Estimativa 2026–2028:
incidência de câncer no Brasil. Rio de Janeiro: INCA, 2026.
Disponível em:
https://www.gov.br/inca/pt-br/assuntos/cancer/numeros/estimativa
INCA. INCA estima 781 mil novos casos de câncer por ano no Brasil
entre 2026 e 2028. Notícia institucional, 04/02/2026. Disponível em:
https://www.gov.br/inca/pt-br/assuntos/noticias/2026/inca-estima-781-mil-novos-casos-de-cancer-por-ano-no-brasil-entre-2026-e-2028
SANTOS, M. O.; LIMA, F. C. S.; MARTINS, L. F. L.; et al. Perfil
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Cancer Observatory. Disponível em: https://gco.iarc.fr
Fatores de risco e fração atribuível
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REZENDE, L. F. M.; et al. Proportion of cancer cases and deaths
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UMANE; VITAL STRATEGIES; INCA (parceria técnica). Mais Dados
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WORLD CANCER RESEARCH FUND / AMERICAN INSTITUTE FOR CANCER RESEARCH.
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Perspective (Third Expert Report), 2018 e atualizações do
Continuous Update Project. Disponível em:
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rastreamento do câncer do colo do útero (incorporação do teste de
DNA-HPV). Disponível em:
https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/pcdt/r/rastreamento-cancer-do-colo-do-utero
MINISTÉRIO DA SAÚDE. Ministério da Saúde oferta tecnologia inovadora
100% nacional para detectar câncer do colo do útero no SUS, 15/08/2025.
Disponível em:
https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias/2025/agosto/ministerio-da-saude-oferta-tecnologia-inovadora-100-nacional-para-detectar-cancer-do-colo-do-utero-no-sus
MINISTÉRIO DA SAÚDE. Ministério da Saúde garante acesso a mamografia
a partir dos 40 anos, 23/09/2025. Disponível em:
https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias/2025/setembro/ministerio-da-saude-garante-acesso-a-mamografia-a-partir-dos-40-anos
BRASIL. Portaria SAES/MS nº 4.642, de 6 de agosto de
2026 — inclui na Tabela SUS o procedimento de pesquisa de
sangue oculto nas fezes por teste imunoquímico fecal (FIT) para
rastreamento de câncer colorretal, bienal, de 50 a 75 anos. Diário
Oficial da União.
MINISTÉRIO DA SAÚDE. Ampliação e prorrogação da estratégia de
resgate vacinal contra o HPV para jovens de 15 a 19 anos. Disponível em:
https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias/2025/dezembro/ministerio-da-saude-amplia-prazo-de-resgate-vacinal-contra-hpv-para-jovens-de-15-a-19-anos-ate-2026
BRASIL. Lei nº 12.732, de 22 de novembro de 2012 —
prazo para início do tratamento oncológico no SUS.
INCA. Programa Nacional de Controle do Tabagismo.
Disponível em:
https://www.gov.br/inca/pt-br/assuntos/gestor-e-profissional-de-saude/programa-nacional-de-controle-do-tabagismo
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Ética e comunicação
CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA. Resolução CFM nº
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CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA. Resolução CFM nº
2.314/2022 — telemedicina.
BRASIL. Lei nº 13.709/2018 — Lei Geral de Proteção
de Dados Pessoais (LGPD).
Sobre o autor
Dr. Bernardes Leite de Oliveira é médico oncologista
clínico (CRM-AM 4587, RQE 3902/4058), atuante em Manaus, Amazonas.
Dedica-se à oncologia clínica no Sistema Único de Saúde e à produção de
material educativo em linguagem acessível, com foco na realidade
amazônica: doenças endêmicas, alimentos e plantas regionais, e as
barreiras geográficas de acesso ao diagnóstico e ao tratamento. É autor
independente de obras de educação em saúde e material clínico voltado à
prática no SUS.
Se este livro fez você marcar uma consulta, tomar uma vacina
atrasada, agendar um exame ou apagar um cigarro, ele cumpriu
inteiramente sua função.